
Cai.
Gota a gota.
Como quem se derrama.
Se entrega por inteira, se deixa, se dar.
Se enche e transborda.
Pinga.
A lágrima.
Outra e mais outra.
Curvada como pétala que cai.
Vermelha.
Era rosa.
Como quem, se der, ama.
Chora alma, chora sangue.
Se desfaz.
Gota a gota.

"Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel."
(William Shakespeare )
Um dia de espera e saudade
Uma novidade para partilhar
Um plano para sonhar
Um sonho para planejar
Tudo isso atropelado por essa intolerante desconfiança.

Eu não sabia se era medo, precaução, nem o mais certo a fazer, mas na dúvida resolvi me jogar. Sim, me lancei novamente sem saber no que vai dar. Porque eu não sei viver pela metade. Nem somente avaliar, enquanto os dias passam. Aliás, é pouco o que eu realmente sei nesta vida. Sou assim. Sou a favor do inteiro, do muito, cheinho pela boca e com a torneira aberta para não esgotar. Afinal, apesar de sonhadora, faz-de-conta nunca foi meu joguinho favorito. Talvez por cinco segundos ou o tempo de lavar os quase, os se, os como seria e colocar tudo para quarar. Talvez a brancura deixe tudo mais claro. Será?
Sentar de costas para as ondas e construir castelinhos, com torres, soldadinhos e princesas, cercado por lagos, e ficar ali, formando uma barreira por temer qualquer marolinha transformar em ruína a fortaleza cinza? Nãm. Sem graaaça essa brincadeira!
Prefiro mesmo é me molhar, mergulhar, pegar jacaré. Sentir o sal na boca, a areia na pele, a água morna e azul jogando o cabelo nos olhos, enquanto o sol colore tudo. Levar caldo e descobrir que a onda passa e a sensação de afogamento vai embora também, mas o mar continua ali, convidando a diversão. Tão contido e agitado como a onda que passou ainda há pouco. E nesse vai-e-vem parece se renovar, se encher e esvaziar, sem deixar de ser mar. E vá saber se não é a mesma onda, aquela de agora há pouco, a do caldo. Será?
Como saber? Justo eu que realmente pouco sei da vida!
Mas, na dúvida, decidi mergulhar.

A caneta deitada sob o papel esperava a inspiração, que cismou em não vir. Emoções a serem decodificadas, angústias para se traduzir, interrogações em busca de respostas, quaisquer letras que preenchessem em azul o vazio, o silêncio, o branco. As gotas de tinta ansiavam tanto quanto as mãos por sentimentos outros, que movimentassem a ponta fina e rabiscassem saídas, conclusões, começo. Mas nada se movia. A não ser pelo vento indiferente arrastando a folha nua pela janela. A luz rebatida destacava as cores daquela manhã de domingo. Contrastando com o céu, dava conta que a vida acontece lá fora, sem esperar por registros ou certezas.

Era quase meio-dia. O sol forte consumia não só líquidos e sais, mas o resto de idéias que povoavam-lhe a cabeça. Por um momento, pensou em ligar. Ouvir sua voz, mesmo que breve, poderia reverter o calor em maresia. Mas o que dizer? Já não havia desculpas para disfarçar o desejo. Escancarar a fome, a boca sedenta pela tua, não parecia boa idéia ou qualquer coisa que aquela temperatura infernal deixasse escapar. Consultou novamente o relógio, se foram 36 segundos desde a última vez. Mas o intervalo era espaçado demais, para caber ali toda a angústia, dúvida, vontades. Abriu a carteira e logo depois um sorriso. Sem saber como seria, se fosse, catou moedas e se fechou em um coco verde, enquanto olhando para o nada, via a vida e os carros passar. O orgulho é uma daquelas armadilhas do “Se”.

Tem certas coisas que nos devolve a nós. Estar em casa é uma. Não há nada novo, os móveis estão dispostos na mesma ordem que ontem. A cadeira, com o encosto quebrado há semanas. A parede descascada lembra que a mão de tinta não veio com o ano que passou, mas ainda assim a cor é alegre e aconchegante. É interessante me achar em temperos, travesseiros, pelúcias e até no vento que passa rápido pela varanda, mas sempre vem nos visitar.
Algumas pessoas também têm este poder.
Com ela é sempre assim.
O olhar profundo e a palavra firme fazem brotar a doçura. E se o sorriso é quem se abre primeiro, a paz reina sem pressa de ir embora. As mãos finas e delicadas, sem esconder as rugas e a dureza dos dias, são o melhor afago para arrancar o riso ou secar a lágrima. O cheiro entranhado nelas é bom, mesmo quando cortam cebolas. O colo. Ah! Este merecia um parágrafo único, por ímpar que é. Mas é seu amor generoso que mais me encanta e constrói. Nunca soube ao certo quem é o seu preferido. E como é bom saber-se igual!
Ela não é a minha melhor amiga, daquelas a quem se contam os segredos, desassossegos e desejos mais descabidos. Contudo, sem que eu abra a boca, ela já os sabe só em me olhar. Nem seria a conselheira favorita, que tem a palavra certa na hora certa. Ela às vezes não entende, mas sempre me mostra e faz buscar sabedoria, só Deus sabe de onde (ela deve saber também). Foi dela que eu senti saudade no primeiro dia na escola e no primeiro carnaval nas ladeiras de Olinda. É dela que vem a coragem para acreditar que tudo vai melhorar, cedo ou tarde. E que nem por isso devemos nos conformar e só esperar. É quem me lembra que preciso rezar mais, economizar mais, aprender mais e continuar lutando.
Embora a profissão e a paixão não a deixem largar a escola, mesmo aposentada, foi com outra que aprendi o bê-a-bá. Foi em outros bancos e salas, que ela me ensinou a colorir o mundo, somar alegrias, partilhar o pouco, entender que o outro é igual a mim, apesar de tudo, e que cabe a mim, me melhorar pra vê-lo mais bonito. E ter força para levantar após uma, duas, três rasteiras ou de uma noite inteirinha de chuva no travesseiro, se confiar nEle.
Apesar do nome de santa, ela não o é, graças a Deus. Mas traz em si o poder de dar a vida e na sua finita humanidade, me incita a buscar o céu. Foi ela quem me disse que eu tenho um anjo da guarda, que sempre vela por mim. Só não falou que o anjo também faz o prato favorito, cuida do machucado e até hoje sente prazer em gastar as suadas economias comigo, e não com si. Talvez por ser uma das rosas que a santa xará, na cabeceira da cama, carrega no colo.
E eu a amo porque ela me traz de volta. Embala o sono e faz perceber a beleza do simples. Porque ela é assim. Com ela é sempre assim! O dia fica mais ameno, não importa o tempo lá fora. E eu sempre enxergo melhor a vida, os outros e a mim nos seus olhos. Isso porque venho dela e muito do que sou, é ela.

Mas eu não penso em morrer. E não é por medo. Mesmo por que decobri há pouco e de forma crua, que a morte é só uma saudade certa de não ter fim. Também não é por ter ainda muito para aproveitar. Ultimamente e com frequência tenho questionado se realmente tenho vivido e as dúvidas sempre predominam . Mudar de vida? Um corte de cabelo novo? Outra profissão? Mais dinheiro? Casar? Comprar um shake? Ir pra China? Continuo sem novidades. A chuva cai e eu penso na vida e me sinto cansada. Mas eu não penso em morrer. Até sonho, com outros mundos, outros amores, outros projetos, contanto que sejam fáceis. Mas não é. É tudo tão difícil. E há tanto tempo. Às vezes, o corpo se torna pequeno para o peso da alma e não há forças para se construir todo dia. A realidade sempre vem e te acorda. E hoje parece ainda mais enfadonha. Mas, apesar de todo cansaço, eu não penso em morrer. A vida se renova mesmo quando não percebemos as mudanças. E a chuva já já cessa e seca a alma.