segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Reencontro


A saudade era imensa, assim como a surpresa do reencontro.

As fotos na velha frasqueira traziam doces momentos amarelados. Diferente das peças hoje penduradas no guarda-roupas, o sorriso era uma das poucas coisas de criança que ainda conservava, ao lado de sonhos que iluminam os olhos. Um pouco de medo e teimosia deram o tom dos passos - nem sempre acertados. Não diria inocência, mas mania de acreditar primeiro no lado bom, mesmo que depois "queime a língua" ao perceber o contrário. Há coisas que não mudam com o tempo.

Apesar de algumas transformações, o cenário se prendia aos mesmos alicerces de antes para mostrar a força das suas bases. Assim como a paisagem ora verde, ora queimada dos canaviais de sua infância ensinara a enxergar além da poeira de carvão que pendiam dos talos, que as chamas são necessária para apurar a doçura dos dias mais simples. O contraste entre o barro da estrada sob o túnel de bambu, na entrada da vila, acendia o desejo de ir. A casa, mais que um chão vermelho e paredes suadas, que há muito veio abaixo, se mantinha firme nas lembranças.

A conversa no pé da cerca. O balanço no quintal. A água de sabão que corria do tanque. O cheiro de café no fim da tarde. A espera pelo apito das cinco, que trazia de volta aos pequenos castelos seus reis em uniformes azul e capacetes vermelhos de operário. O mundo era tão maior e mais bonito como as finas mãos que advertiam cuidado na hora de voltar para casa, enquanto os pés corriam descalços sobre pequenas pedras e debaixo de gargalhadas. A vida era infinitamente mais fácil, mas não se avisava isso aquela época.

Os trilhos de ferro, em frente a casa, lançavam centenas de milhares de fagulhas e passagens, enquanto, apressado, o maquinista borrava o céu de cinza. Assim como o velho trem, o tempo também não reduziu a velocidade. E de repente estava ali, parada, a olhar os olhos, o sorriso, os sonhos. Queria saber rápido o que perdeu no caminho, apesar da bagagem abarrotada. Em frente aquela imagem refletida no espelho viu além das primeiras rugas e fios brancos. O reencontro naquele momento da vida vinha da certeza de quem era e como chegara até ali. E o sorriso infantil tomou-lhe, mais uma vez, o canto da boca.

2 comentários:

Panela disse...

Sarinha... Que texto fuderoso (se me permite a expressão)...

Sara disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk claro que eu permito, seus comentários são sempre mt bem-vindos!!