
Esteve sentada todo este tempo, sem saber para onde iria. Olhava as ruas tortuosas e barulhentas e tracejava o melhor roteiro. Havia descrença e uma familiar vontade de ir, que se sobressaía ao cansaço. A tarde caía repartindo calendários e projetos. Logo o céu estaria escuro e as vielas ganhariam centelhas de luz e habitantes, em busca de alívio para suas almas. Havia pressa e tempo escorrido. Mas ela sequer se mexia. Aguardava a receita pronta. Ou ainda que algum coração conhecido a arrebatasse dali. Afinal, sempre gostou de andar de mãos dadas.
E continuou ali, imóvel, só os pensamentos a borbulhar. Confabulando a rota a seguir. Desejando a doçura dos reboques. Lamentando a partida. Reconhecendo estar por conta própria. Um balbuciado a fez emergir. À sua frente, a mão esperava. Suja e calejada. As linhas espalmadas refletiam a súplica pelo que faltava e revelava cicatrizes de feridas que volta e meia arrebentavam. Também era sua esta busca. Também trazia aquelas marcas. Mas estava desprovida. De forças, de fé. Sem moedas na carteira. Um aceno de cabeça despediu o mendigo sem o trocado. Ele sorriu desdentado, antes de subir cambaleante a estreita viela, no rito de estender a mão a quem encontrava pelo caminho. O sorriso era a arma usada, rendesse ou não a esmola. Os passos e tropeços eram guiados pela certeza de que algumas vezes ganharia, em outras, não.
Sem fórmulas ou mapas, cuidou de se por naquela direção.
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