sábado, 25 de setembro de 2010

Papéis não guardam perfume


Ela respirou fundo, contou até três e abriu a porta. Acostumada à trava, a guardiã da passagem reagiu rangendo as toras de madeira. Ali, era local sagrado, havia de se fazer alguma resistência, antes de deixar qualquer desavisado se aboletar sem cerimônias.

Há tempos e por muito, foi habitado por morador um tanto desleixado. Destes que constroem jardim, mas se enfadam com as primaveras e deixam secar as roseiras e os malvões. Ou se contentam em recordar fotografias, como se das imagens amareladas pudessem fazer brotar novos botões. Contudo, papéis não guardam perfume. E aquele vermelho risonho, merecedor de corações e cabelos, desbotou. Uma pena! As cores deveriam reacender a cada nova estação. Mas não resistiram ao rigor do inverno. Não havia mais flores. Nem inquilino. Sequer espetavam os espinhos.

Mesmo desabitada, permaneceu trancada. Sem luz, morno, abafado. Até que desejou respirar. Jurou que seria no três e empurrou. Era tempo de deixar o ar, novamente, atravessar a soleira e renovar cada espaço. Carecia afastar a penumbra, espanar a poeira, trocar os sorrisos do porta-retrato e colocar alegria nos acordes daquela vida. Apressou-se em baixar um play list seleto em velocidade recorde, graças a mais recente versão do aplicativo em mp3. Haveria de ter a malemolência da bossa, a vibração da guitarra do jazz e alguma malícia e roquidão inerentes ao samba - como todo bom brasileiro.

E poesia! Cuidou em rever as estantes e prateleiras e guardar palavras para que não as faltassem quando estivesse ali. E dobrar segredos em pequenos pedaços de seda arrematados com sonhos a serem descobertos com o novo. Resolveu mudar a cor. Ao invés do azul cansado, caiou as paredes em lampejos de sol. E em cada canto borrifou cheiro de chuva fina. Rabiscos de crianças enfeitariam os cômodos e em tramas de nós deitariam desejos. A louça reproduzia a delicadeza das margaridas. Lembrou de comprar chocolates e jornal para o café. Treinou sorrisos faceiros e gargalhadas. Tudo deveria estar pronto  (mesmo que ela não se soubesse também). Deixou o molho de chaves sobre a mesa e uma advertência de boas-vindas!

Suspirou receosa, mas fazia minutos que contara até três. Olhou o santuário vazio e sentiu que estava pra chegar. À entrada, pendurado por dobradiças de cobre, o portal de madeira parecia não ter certeza de se deixar como está. Aberto. Tal condição era algo quase esquecido e um tanto assustador - Não só para a porta!

4 comentários:

Michelle disse...

Que lindo esse texto! de ver você esticando os horizontes da gente.
muito muito forte!
beijos
e que as portas das palavras estejam sempre abertas.
com amor
mi

Marcelo Tavares disse...

Texto belíssimo. Cada palavra no seu devido lugar.

Daniela disse...

Belíssimo esse texto amiga!!!! Não sabe o qt me tocou.
Obrigada!
bjusss

Carlinha disse...

P-E-R-F-E-I-T-O!!!! Lindo, lindo e lindo!!!