
O bule. O fogão à lenha. O cheiro de café convidando a conversar. As tardes eram mais amenas e os risos mais fáceis. Da cozinha, se ouvia vozes alternando numa melodia de alegria e confissão. As mãos que há pouco secavam lágrimas, agora côa o líquido preto e serve a xícara quente. A vida na simplicidade, buscando somente ser o que é. Sem pretensões. Sem muitos planos ou quereres. O momento. Um gole de cada vez.
A correria e o cansaço do dia-a-dia embaçam a beleza de ouvir os olhos, tal qual o vapor fumegando da xícara turva as lentes. Às vezes, tempo e sonhos são investidos em coisas que não convém. Que travam na boca e deixam apenas um gosto ruim. Enquanto o que faz bem é simples, sempre esteve lá, de graça, como naquelas tardes em que o aroma aquecia a casa e o coração. Tão perto, a um movimento da mão. Basta apenas reconhecer e priorizar o que realmente importa. Dar a dose necessária para o dulçor.
E outras vezes, adequar o paladar, perder o medo de se queimar e saber que mesmo doendo, depois passa. Cada coisa por sua vez, sem a pressa de fazer da vida um compilado de pessoas, coisas e planos que nos levam de nós. Apenas viver. Saboreando o gosto forte do amargor que adoça a boca. O bule todos os dias está no mesmo lugar.
– Puxe uma cadeira, sirva-se!
2 comentários:
Concordo com você. O bule todos os dias está no mesmo lugar. O problema é que muitas vezes a gente (por timidez, medo ou insegurança) não toma a liberdade de se permitir. Texto massa, Dona Sara.
Simplesmente poético! Muito lindo Sra. Vasconcelos!!
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