terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A MAGIA DA RENOVAÇÃO


O calendário. O ritmo compassado do relógio. A correria de carros e passos nas ruas da cidade. O tempo sendo aguardado, como o show de um grande ilusionista que esconde na manga o poder de transformação. E deixa para os dez segundos finais o ápice da apresentação: a magia do início depois do fim. O novo, o que virá. Uma última olhada nos 365 indivíduos e mais aquele penetra, que da platéia espreitam o espetáculo com suas caras murchas, seus sorrisos breves, cansados do peso do trabalho, dos erros e das perdas, arregalam os olhos para prender o momento, pois só restam 10 segundos, um fechar das cortinas e o que é não será mais, como num passe de mágica. Esvaziando as poltronas e os camarotes para novos espectadores sentarem-se.
Nas coxias apenas os personagens revestidos de sonhos e esperanças fazem planos para o que há de vir. E rabiscam cenários e desnudam figurinos numa pressa criativa, como se detivessem nas pequenas mãos a certeza do roteiro perfeito a seguir. E a têm, ao menos por dez fragmentos de tempo.
O calendário já marca o último instante e anseia a força do vento para virar a folhinha. Um marcar de espaço. O futuro e suas inúmeras possibilidades de acertos. Tantas quanto as hipóteses do segredo do mágico. Mas qual será o truque? O mesmo encantamento recai sobre crianças e velhos ao longo da eterna corrida dos ponteiros do relógio.
E finalmente chega a hora da redenção, num estourar de luzes, champanhe e sentimentos, recebemos a segunda, a terceira, a quarta chance de compreender os erros, superar as tristezas, olhar para frente e investir no novo. O novo ano, a nova vida, os novos projetos. O desconhecido mistério saindo mais uma vez da cartola, branco como um coelho de curiosos olhos vermelhos. De um salto, a criança da primeira cadeira, simples como o ano que acaba de nascer, acolhe o bichinho na mão e revela baixinho: o segredo é a renovação.
O truque é o mesmo, assim como o número de dias do calendário. O que muda é a nossa disposição de buscar e acolher os novos coelhos, com a mesma ilusão e encanto dos espectadores que agora ocupam a platéia para o show que apenas está começando. Pois, como diria o mago Quintana “Bendito quem inventou o belo troque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia primeiro de cada mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas recomeça."

(texto publicado no JH Primeira Edição de 27/12/2008)

FELIZ 2009...