domingo, 30 de janeiro de 2011

Silêncio

Enxurrada de silêncio arrastando palavras.
Lava calçadas.
Arrasa mundos.
Pedras mudas a se mover.
Fazem ruído de ensurdecer dor.
Desfaz paisagens.
Ficará o que dizer?

Troveja lembranças.
Quebra a esperança o que não foi dito.
Sonhos sendo levados,
bóiam em meio a sacos plásticos.
Perdem a cor.
Socorro que não vem.

Caem tendas, telhados, promessas.
Fecha o céu.
Temporais se calam.
Abre a boca.
Córrego de frases soltas.
Lágrimas escorrem ao largo.
Sentimento de perda.
Palavras – era tudo o que eu tinha.

Cratera divide em dois o pronome.
Interrompe.
Estica os ouvidos para erguer pontes.
Batentes à porta esperam outras inundações.
Pingam gritos anunciando o bom tempo.
Em breve acaba o verão.

Vento no fim da tarde sussurra.
(Este é o som que interessa).
Olhares cochicham.
Segredo.
Silencia em paz.
(Em) siiiiii...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Saudade

Hoje, no caminho de volta para casa, senti falta do seu abraço. Lembrei das vezes que partilhamos corações partidos. Era tarde, havia silêncio e escuro no quarto. E você, com seus cabelos brancos e sorriso fácil, irradiava luz ao estancar minhas lágrimas com confidências de desencontros e despautérios da vida de solteiro. “Todo mundo sofre disso um dia, filha”.
Se fechar meus olhos, ainda consigo ver os teus e aquela ruguinha formada no canto rindo pra mim. Se abri-los, também. Dá pra sentir a umidade e o sal da lágrima empoçada no côncavo entre meu rosto e sua perna, local apropriado para afogar desilusões.
O peso da mão e o toque dos dedos entre meus cabelos oscilavam entre o instinto de proteção e um desejo contido de esganar o autor de tamanha desgraça mexicana - se soubesse quem era, claro.
Que bom que você não descobriu o responsável por aquele dramalhão. Que bom que este momento existiu para nos fazer mais cúmplices.
Em meio a cacos e estilhaços e histórias de paixões mal e bem vividas, você (re)construía em mim um novo coração - passível de outros erros e ainda carente dos teus remendos. Que bom que você me fez entender que “O melhor ainda está por vir”.
E hoje, no caminho de volta para casa, não havia mais pedacinhos pra juntar, nem dor de amor, sequer desilusão. Mas naquele silêncio da tarde, desejei mais uma vez teu colo e compartilhar desencontros e despautérios desse saudoso coração.