domingo, 31 de maio de 2009

O despertar

A tarde se despedia com rubros acenos, que enfeitavam o céu em tela-viva e a sensação era de quem acabara de despertar. Os olhos abertos e curiosos, depois de muito esfregá-los, vislumbravam a serena inquietude dos dias mais quentes. A boca seca gritava por novos, velhos, todos os sabores que se pudesse provar, enquanto o azul-marinho tingia a malha celeste e a moldura ganhava pequenos pontos de luz.

Como quem tem todo e nenhum tempo, desci as escadas à procura do que não vivi. Já passava da hora de sempre e eu começava a acordar em mim todos os sonhos e desejos adormecidos até a noite passada (ou seriam anos?). A urgência da descoberta que estava por vir fazia espantar a preguiça dos primeiros instantes. Pensei em pedir mais cinco minutinhos, envolta em colchas quentes de lembranças e retalhos do passado, mas a vida pede a pontualidade do encontro.

A princípio, tentei calcular, na ponta do lápis, quanto e como recuperar a soma dos dias que deixei passar. Talvez juntar aos punhados os ideais e planos que aquele calor insuportável sacudiu da cama do conformismo. Ou em outra equação, elevar à potência os vindouros restos dos meus dias e encontrar a razão entre o feito e o por fazer. Até que lembrei que sou dada às letras, à poesia e à prosa, e não aos números ou a esta vã matemática, que só me causa dor de cabeça.

Abri a porta em busca das respostas. Andei como quem está atrasado para uma entrevista. E eu estava. A noite já caía com a pressa das horas que acende faróis e faz ascender o sagrado aroma de café, como incenso para o ritual da lua. A boca ainda seca cantava a ave-maria, enquanto o coração ansiava por outro José. Sem me importar com as pedras embaixo do salto e as roupas de cores cansadas, como aquele céu que se desfazia em azul acinzentado, me alegrava a cada esquina virada.
O viver exige estranhas e doces ousadias como brincar debaixo de chuva, ou dançar na rua, sem perceber os olhares vindos dos carros.
E eu trazia a disposição de quem acabara de acordar de um sono bom.