quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Retrato da velhice brasileira
Todos os dias ela sai para trabalhar. Apesar do peso da idade e da minguada aposentadoria, a necessidade obriga a mulher acordar cedo para mais uma batalha. Com passos lentos, se move até o tabuleiro em que vende verduras ou ao sinal mais próximo, para esmolar a dignidade. É uma troca justa. O que sobrou da saúde pelo pão de filhos e netos, que jamais darão o reconhecimento ao ato de amor da velha senhora. Este é o retrato de um país que caminha, sem preparo e sem respeito, para o envelhecimento. Hoje, pessoas com mais de 60 anos são responsáveis por pelo menos a metade das despesas de mais de 50% dos lares brasileiros. Mas assim como sobe os índices de participação no orçamento familiar, crescem, também, os casos de violência. Em Natal, a cada ano são registradas em média 350 denúncias de violência contra o idoso na delegacia especializada, e 200 ocorrências no serviço SOS Mulher. A maior parte se refere aos maus tratos e apropriação financeira indevida. Parentes mais próximos, como netos, filhos e seus parceiros, são os principais praticantes dessas atitudes, consideradas crime pelo Estatuto do Idoso. Ou seja, aqueles que se sacrificam para dar o sustento, são também os sacrificados por uma cultura desumana, que suga as forças, o dinheiro e reduz nossos idosos a dados estatísticos “sem grande serventia”.
Do cinza se faz aquarela
Tarde morna. Do campo cinza, onde repousam sonhos e histórias, o velho de enxada na mão revolve a terra e faz surgir pequenas flores, devolvendo a aquarela à paisagem fria. A lâmina corta a terra dura e traz a beleza de volta, mas não sem antes revirar o chão. A lida diária consiste em transformar ambientes, retirar o pó, zelar pelo que não é mais. Solitário, já se habituou as lições do tempo e do silêncio, que mostra que o sofrimento abre espaço para a vida. É a renovação. O fim, antes da mudança. A lida diária de desencontros e dificuldades que cava espaço para as transformações. É preciso estarmos atento a estes ciclos, aos túmulos que nos cerca, onde descansam desassossegos, sepulta-se enganos, mas que também serve de base para cultivar jardins.
O analfabetismo, um cárcere
Estes dias me atravessou manchete de um matutino: “Homem preso por não saber ler”. A matéria dava conta da prisão de um “foragido” analfabeto, que ignorava a obrigação de comparecer a audiência conforme descrito na intimação judicial.
Talvez, o leitor mais apressado não tenha reparado no absurdo do crime, nem tampouco, do criminoso. Longe da morosidade e da burocracia burra que amordaçam a dama cega e entopem o gargalo do sistema prisional, a violência ali é outra. Uma violência velada cometida diariamente por uma democracia às avessas, que à sangue frio atenta contra o futuro de outros tantos brasileiros. O analfabetismo é uma cela que há muito envergonha o país.
Em tempos de mostrar serviço e correr atrás de votos, o interesse dos nossos prefeitáveis estão mais voltados para criticar uns aos outros do que para apresentar propostas coerentes à educação do município. Mas sem querer defender a classe política, a sociedade também tem sua parcela de culpa, visto que não participa da vida escolar de nossas crianças e jovens.
Mas o absurdo não pára por aí (e nem os crimes). Dados do IBGE dão conta que dos cerca de 60 milhões de estudantes, 60% das crianças de primeira a quarta série não dominam as quatro operações básicas, 65% dos alunos da oitava série não sabem trabalhar com porcentagens. Mas isto são detalhes, o importante é atingir a meta do IDEB, na busca por uma colocação que levará ao país ao patamar de “desenvolvido”, por meio de uma metodologia que maquia resultados e emburrece estudantes, que não podem ser reprovados.
Um governo que nega ao seu povo à educação, encarcera a liberdade de escolhas, aprisiona na cela escura e imunda um mundo de possibilidades, de desenvolvimento humano, político e social.
Talvez, o leitor mais apressado não tenha reparado no absurdo do crime, nem tampouco, do criminoso. Longe da morosidade e da burocracia burra que amordaçam a dama cega e entopem o gargalo do sistema prisional, a violência ali é outra. Uma violência velada cometida diariamente por uma democracia às avessas, que à sangue frio atenta contra o futuro de outros tantos brasileiros. O analfabetismo é uma cela que há muito envergonha o país.
Em tempos de mostrar serviço e correr atrás de votos, o interesse dos nossos prefeitáveis estão mais voltados para criticar uns aos outros do que para apresentar propostas coerentes à educação do município. Mas sem querer defender a classe política, a sociedade também tem sua parcela de culpa, visto que não participa da vida escolar de nossas crianças e jovens.
Mas o absurdo não pára por aí (e nem os crimes). Dados do IBGE dão conta que dos cerca de 60 milhões de estudantes, 60% das crianças de primeira a quarta série não dominam as quatro operações básicas, 65% dos alunos da oitava série não sabem trabalhar com porcentagens. Mas isto são detalhes, o importante é atingir a meta do IDEB, na busca por uma colocação que levará ao país ao patamar de “desenvolvido”, por meio de uma metodologia que maquia resultados e emburrece estudantes, que não podem ser reprovados.
Um governo que nega ao seu povo à educação, encarcera a liberdade de escolhas, aprisiona na cela escura e imunda um mundo de possibilidades, de desenvolvimento humano, político e social.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Infância Roubada
Seis meses de vida e já atrás de grades. Não há culpa naquele pequeno ser. A pena (e a dó) é da mãe, condenada por tráfico, que reluta em deixar ir para além-muros, o fruto de uma aventura. O preço recai sobre a pequena vida, que passa pelos portões para ter sua liberdade aprisionada pela miséria, medo, preconceito.
Aqui fora, são outras as celas que faz refém milhares de crianças. O descaso com a educação e os direitos à vida enchem ruas e canteiros de meninos e meninas, que cheiram cola para matar a fome, inclusive, de atenção, na certeza que não terão muitas oportunidades, nem boas lembranças no futuro.
A indignação sem atitude é outra cela, vizinha a da indiferença, que alimenta a desigualdade e a injustiça. E rouba das nossas crianças aquilo que teriam de mais sagrado: a infância e sua inocência.
Aqui fora, são outras as celas que faz refém milhares de crianças. O descaso com a educação e os direitos à vida enchem ruas e canteiros de meninos e meninas, que cheiram cola para matar a fome, inclusive, de atenção, na certeza que não terão muitas oportunidades, nem boas lembranças no futuro.
A indignação sem atitude é outra cela, vizinha a da indiferença, que alimenta a desigualdade e a injustiça. E rouba das nossas crianças aquilo que teriam de mais sagrado: a infância e sua inocência.
A violência pela catraca
O relógio marca 7h40. Atrasada, corre, sobe, senta. Da janela vê passar carros, buracos, edifícios, no percurso de todos os dias. Passam pessoas apressadas, que lutam contra o tempo, enquanto este passa e leva longe a época em que Natal dormia segura, onde a “guerra urbana” era coisa dos morros de um outro Rio. Tempos em que se podia caminhar, comprar pão ou andar de ônibus sem grandes preocupações. Tempos em que crianças brincavam de polícia e bandido, sem fazer confusão entre quem é o ‘mocinho’ e o ‘vilão’.
-“Passa, Passa”- não era pensamento alto.
Por trás do trêsoitão, o grito impaciente mostra a cara do terror, que também cedo madruga. Afinal, também vai longe a época em que havia locais e horários para acontecer.
– “Tá surda? Não ouviu, não? Passa!”.
E leva a bolsa, o celular, o resultado de horas de trabalho e a dignidade de uma vida, reduzida ao tamanho da maldade. Em meio ao choro e gritos de desespero, vê-se o corpo estendido. O ladrão de vidas correndo.
Vê-se ainda o medo estampado nas caras, nas primeiras páginas, nas grades e cercas elétricas. O que não se pode ver é a cara do bandido, aquele que levou a bolsa e a dignidade, destes está resguardado o direito de imagem.
Mas e o direito dela continuar mostrando o sorriso, não cuidaram?
Porque esperar? 155 assaltos à transportes coletivos, em 8 meses, não eram suficientes? Não bastava só o atraso dos ônibus? Aquele corpo sem vida poderia ser o de qualquer um ali, até mesmo o seu.
Engessados na burocracia e leis de inúmeras interpretações, os responsáveis (?) pela segurança pública se movem ao passo de ‘latas velhas’. É preciso mais que competência para enxergar pessoas além de números e ações, além de promoção. Antes que passe, também, o tempo em que a população tinha em quem confiar.
-“Passa, Passa”- não era pensamento alto.
Por trás do trêsoitão, o grito impaciente mostra a cara do terror, que também cedo madruga. Afinal, também vai longe a época em que havia locais e horários para acontecer.
– “Tá surda? Não ouviu, não? Passa!”.
E leva a bolsa, o celular, o resultado de horas de trabalho e a dignidade de uma vida, reduzida ao tamanho da maldade. Em meio ao choro e gritos de desespero, vê-se o corpo estendido. O ladrão de vidas correndo.
Vê-se ainda o medo estampado nas caras, nas primeiras páginas, nas grades e cercas elétricas. O que não se pode ver é a cara do bandido, aquele que levou a bolsa e a dignidade, destes está resguardado o direito de imagem.
Mas e o direito dela continuar mostrando o sorriso, não cuidaram?
Porque esperar? 155 assaltos à transportes coletivos, em 8 meses, não eram suficientes? Não bastava só o atraso dos ônibus? Aquele corpo sem vida poderia ser o de qualquer um ali, até mesmo o seu.
Engessados na burocracia e leis de inúmeras interpretações, os responsáveis (?) pela segurança pública se movem ao passo de ‘latas velhas’. É preciso mais que competência para enxergar pessoas além de números e ações, além de promoção. Antes que passe, também, o tempo em que a população tinha em quem confiar.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Mar de Agosto
A vida também é uma grande pesca
Manhã chuvosa. Ondas revoltas e muito vento não teriam permitido que canoas e saveiros saíssem para pescar. Apesar do mau tempo, o homem simples levanta e segue para as águas, de onde vem o sustento. Não há muitas escolhas. Nas inúmeras tentativas traz o peixe. Mais que a fé daquele outro pescador , que vacilou nas águas, este tem a humanidade erguida pela carência e esperança de um dia melhor. A vida também é uma grande pesca. E exige de cada um de nós paciência para enfrentar as tempestades, perseverança para saborear o resultado e sabedoria para não se contentar com a calmaria.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Basta amar
E aquela menininha de cinco anos, não mais que cinco anos, que há pouco estivera sentada em frente à tumba na qual, em doce sono, descansa seu pai, agora levanta mulher. Forjada pelo fogo da dor do desamparo e pela experiência de amor que sobrevive além-morte, busca apenas viver.
Quando levantou a cabeça, enxergou um dia novo, cheio de novas luzes, cores, cheiros e sabores. Não soube dizer com a precisão de um palhaço - estes seres que muito sabem da vida – se este, o dia, era mais ou menos belo e gostoso, dos que em outra tarde experimentara ao lado do velho pai. Homem sábio, simples, de palavras fortes e sorriso fácil. Apenas novo.
Aquele dia tinha as mesmas sementes que, todos os dias, fazem germinar e crescer a vida, com as dores das podas necessárias para que floresçam em beleza, colham frutos doces e tenros, depois adormeçam e cedam lugar para um outro plantio. O novo, ali, era a forma como a mulher de cinco anos enxergara o dia. “Em tudo Deus põe um propósito. Sê feliz, filha”, ouviu o pai dizer.
Um flerte rápido com esta vida, de olhar sedutor, decodificara as dificuldades e os paradoxos pavorosos, em simples crônicas de leitura diária ou em notícias de algum matutino. Destes que circulam entre tantos desconhecidos, conhecedores de semelhantes infortúnios e dissabores. E forçara a dor única da menina-mulher a moldar-se ao tamanho que tem: nem maior nem menor do que outras tantas estampadas na primeira página.
Algumas horas, ela finge ser mulher para agüentar a vida. E com uma canção de ninar põe para dormir os anseios e medos que a figura da morte, não mais aquela de outrora, esquálida, sombria, de túnica preta e cajado na mão, impunha. Mas agora a de um translúcido anjo, que com ternura ceifa vidas, entre campos de alegrias e sofrimentos, e recolhe almas num cântaro de preces a Deus.
Outras, como uma menina de não mais que cinco anos, que não entende a morte, lamenta, chora, levanta e vai ver televisão. Às tardes sempre passam desenhos e filmes bobos, que se satisfazem em alimentar o imaginário humano com fáceis conclusões. Percebe no passado os pilares que a levaram até ali, planeja o futuro e, no presente, repete em silêncio uma oração de amor: “Obrigada”.
A menina que sentara para chorar ergue-se mulher. Arruma o vestido. Seca as lágrimas. Abre um grato sorriso e deposita a mais linda rosa, que jamais ofereceu em vida, no vaso junto à cova do pai. E o vê sorrindo, “Sê feliz, filha”. Antes de sair, um passarinho com um enorme rubro nariz de palhaço pousa no ombro e cochicha baixinho, para que as marmoreáveis lápides e seus epitáfios não se sintam menosprezadas: Basta amar!
E entende que não foi a morte, nem é a vida, mas o amor. Este laço em nó-de-marinheiro que une, sem ferir e sem desatar em circunstância alguma, pais e filhos, casais, amigos, e dá a luz, e dar a cor, o cheiro e o sabor para olhar e entender o novo mundo, que a cada dia floresce perante aos nossos olhos.
Quando levantou a cabeça, enxergou um dia novo, cheio de novas luzes, cores, cheiros e sabores. Não soube dizer com a precisão de um palhaço - estes seres que muito sabem da vida – se este, o dia, era mais ou menos belo e gostoso, dos que em outra tarde experimentara ao lado do velho pai. Homem sábio, simples, de palavras fortes e sorriso fácil. Apenas novo.
Aquele dia tinha as mesmas sementes que, todos os dias, fazem germinar e crescer a vida, com as dores das podas necessárias para que floresçam em beleza, colham frutos doces e tenros, depois adormeçam e cedam lugar para um outro plantio. O novo, ali, era a forma como a mulher de cinco anos enxergara o dia. “Em tudo Deus põe um propósito. Sê feliz, filha”, ouviu o pai dizer.
Um flerte rápido com esta vida, de olhar sedutor, decodificara as dificuldades e os paradoxos pavorosos, em simples crônicas de leitura diária ou em notícias de algum matutino. Destes que circulam entre tantos desconhecidos, conhecedores de semelhantes infortúnios e dissabores. E forçara a dor única da menina-mulher a moldar-se ao tamanho que tem: nem maior nem menor do que outras tantas estampadas na primeira página.
Algumas horas, ela finge ser mulher para agüentar a vida. E com uma canção de ninar põe para dormir os anseios e medos que a figura da morte, não mais aquela de outrora, esquálida, sombria, de túnica preta e cajado na mão, impunha. Mas agora a de um translúcido anjo, que com ternura ceifa vidas, entre campos de alegrias e sofrimentos, e recolhe almas num cântaro de preces a Deus.
Outras, como uma menina de não mais que cinco anos, que não entende a morte, lamenta, chora, levanta e vai ver televisão. Às tardes sempre passam desenhos e filmes bobos, que se satisfazem em alimentar o imaginário humano com fáceis conclusões. Percebe no passado os pilares que a levaram até ali, planeja o futuro e, no presente, repete em silêncio uma oração de amor: “Obrigada”.
A menina que sentara para chorar ergue-se mulher. Arruma o vestido. Seca as lágrimas. Abre um grato sorriso e deposita a mais linda rosa, que jamais ofereceu em vida, no vaso junto à cova do pai. E o vê sorrindo, “Sê feliz, filha”. Antes de sair, um passarinho com um enorme rubro nariz de palhaço pousa no ombro e cochicha baixinho, para que as marmoreáveis lápides e seus epitáfios não se sintam menosprezadas: Basta amar!
E entende que não foi a morte, nem é a vida, mas o amor. Este laço em nó-de-marinheiro que une, sem ferir e sem desatar em circunstância alguma, pais e filhos, casais, amigos, e dá a luz, e dar a cor, o cheiro e o sabor para olhar e entender o novo mundo, que a cada dia floresce perante aos nossos olhos.
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