sábado, 29 de junho de 2013
Saudade
Há exatos seis anos, São Pedro abria as portas do céu (no dia dele) para receber mais um anjo. "Chegue, Raimundo, estávamos só esperando você pra começar. O Senhor já está ali, ansioso, para te ver", disse empurrando com uma pressa animada aquele portão. E eu imagino ele entrando, num passo lento, com aquele riso fácil no canto da boca, sem fazer cerimônias para abraçar a todos e, logo em seguida, pedir ao sanfoneiro para começar logo a tocar: “Tocaí o rei do baião, menino, que hoje é dia de vida nova”.
E essa chegada tinha que ser em dia de festa e festa das boas, como manda a tradição nordestina, com todas as bandeiras, fogueiras, fogos e banquete típico em homenagem ao pescador São Pedro.
Naquele dia, mesmo com tanta dor, achei graça a coincidência da data. Dia do apóstolo de quem a simplicidade e a graça de Deus me faziam (e fazem) lembrar meu pai. Não houve na cidade quem não fizesse a mesma menção: no dia de Pedro. Porque ele também era nosso alicerce.
E, hoje, quando a saudade ainda se faz maior e mais pesada, eu rezo para que esse meu anjo-protetor lindo continue a se alegrar nessa vida nova de festas. São Pedro, cuida para que a música, a comida e as brincadeiras estejam todas do agrado dele, porque a companhia, sem dúvidas, eu sei que é. Amém.
domingo, 23 de junho de 2013
Sem saber escrever
Ela só queria escrever uma história. De preferência, que
tivesse um casal. E quem sabe alguns planos e sonhos para somar ou jogar fora,
enquanto se constrói a vida. Que fosse um conto envolvente ou um romance, com a urgência e
a paz dos abraços, dos braços jogados, esquecidos um sobre o corpo do outro. Uma história que tivesse dois tempos e demorasse ou nunca chegasse ao fim. Que
fosse se renovando a cada novo parágrafo, a cada revisada, a cada frase
riscada, consertada ou até mesmo naquelas que não há mais o que dizer. Escrita
com letras redondas ou hieróglifos ilegíveis, de acordo com a pressa para
captar cada momento, cada movimento, cada pedacinho de si, dos dois. Sem perder
nada. Escrita a quatro mãos e um caminho. Que falasse também em verdades, em
anseios e trouxesse um ou outro erro - já que nada pode ser perfeito. E fosse
simples, como essa vontade doida de rir. Porque o amor pode ser fácil. E ela só
queria escrever. Mas já era domingo. E nessas noites fogem as narrativas.
domingo, 19 de maio de 2013
O domingo se escondeu debaixo das cores cinzas.
O dia foi engolido pela desesperança. Não chegaria mais! As janelas entreabertas, a porta só encostada, tudo vago... estático. Sem previsão, nem fé. Só um vazio insistia em ficar ali espichado, ocupando todo o espaço, enquanto tudo adormecia.
Os sonhos foram deixados na mesinha de canto, junto a um copo de água e algumas bijuterias. Um último cuidado, em caso de sede ou de motivos para acordar.
sábado, 11 de maio de 2013
O grande pedido
Ele me pediu pra voltar.
Disse que o lugar estava vazio e reclamava a minha falta. Sentia saudades e que o amor nunca mudou.
Disse que tudo que eu busco sempre esteve lá.
E é meu.
E vai me dar.
Mas me fez um pedido, desses que a gente acha que é grande demais e por estar tão intrínseco e há tempos, dar margem a questionamentos de se e como atender. Lembrou a bicicleta ou a boneca já comprada, guardada, embrulhada em fita de seda e com muito mais mimos dentro da caixa.
E não é troca.
Já é meu.
Mas que é preciso fazer por onde. Merecedora de tamanha sorte e cuidados precisa ser melhorada. Deve se mostrar à altura do que está à mão.
Poderia me entregar sem nada dizer, como um bom pai que nunca nega nada a filha e se contenta em vê-la sorrir.
- Mas que lição eu tiraria disso? O que melhoraria em mim?
"É pra garantir que você seja e use melhor o que é teu."
E por mais que saber da falta que faço, do espaço e amor que tenho, de já sonhar com o presente desembrulhado... por mais que tudo isso me encha de alegria, fiquei assim... tenho medo. Se eu receber, o mérito é meu. Se não, também.
Divina
Divina.
É assim cada mãe, por obra e graça de Deus. Porque Ele na sua
sabedoria e bondade desejou derramar seu coração na humanidade e
confiou a elas a maior bênção: a experiência de dar a vida. A
vida gerada, carregada e esperada por (nove) meses. Vida já amada
mesmo quando não se viu aquele rostinho e ainda mais depois que o
vê. Amor que mais se aproxima do de Deus - porque são os seres mais
próximos a Ele. Foi a elas que o Senhor escolheu para replicar seu
milagre. Dar à luz. Ao amor. O amor. Mas também incumbiu de ter
tamanha generosidade e entregar a vida pelos seus - o que as
torna humanamente mais divinas. E é feita a vossa vontade, Senhor!
Porque mãe é assim, um pedacinho de Deus.
Feliz
dia, Mainha e mamães queridas!
domingo, 2 de setembro de 2012
Eu quero um amor para casar.
Esse mês foi aberta a temporada dos casamentos de queridas e
nascimentos de filho e filha de outras. E tudo isso me fez parar e lembrar de um
desejo já meio abandonado ou até negado - lá no fundo, pra não dar o braço a
torcer e admitir que carência não é coisa de Deus. Mas fato é que, sim, eu
quero um amor. E um amor para casar! Não é qualquer amorzinho só de enviar
mensagens no meio da noite ou no café da manhã e convidar pra jantar, cineminha
ou show do Criolo e de Chico. Quero mais. Um amor de verdade, desses que aturam
a gente até sem maquiagem, de TPM e depois de chegar de um pescoção no jornal
que te engoliu até às 2h da madruga.
Que venha com borboletas na barriga e rosas vermelhas, mas
que não esqueça que no final das contas a gente ainda vai ter muito que
conversar sobre jogar roupa fora do cesto e toalha molhada na cama. Quero um amor pra casar. Desses que topam ir no
aniversário da avó, pra missa, te levam para ver o jogo do ABC no estádio e param para
ensinar play guitar ou a última versão do Playstation. Mas tenha também
a consciência que sair pra fazer comprinhas no shopping só tem graça com as amigas e arranje algo de
bom pra fazer com os dele.
Não me importa que me ache boba se eu chorar e repetir o
texto pela milésima vez ao ver pela milésima vez ‘Orgulho e Preconceito’. Pode rir, na boa, mas me
aperte de lado. Que brigue por alguém que sofre de enxaqueca e insônia tomar
litros de café comendo chocolate todos os dias, mas desligue a luz e fale
baixinho, depois de me dar um cefalium e um beijo na testa.
Um amor que tenha prazer de escolher os convites, os móveis, o nome dos filhos, que procure semelhanças nossas neles e que sempre ressalte que o melhor deles é meu, para depois receber um elogio. E entenda que livros terão um lugar de destaque na sala- depois das fotos da família - maior que a televisão.
Um amor que tenha prazer de escolher os convites, os móveis, o nome dos filhos, que procure semelhanças nossas neles e que sempre ressalte que o melhor deles é meu, para depois receber um elogio. E entenda que livros terão um lugar de destaque na sala- depois das fotos da família - maior que a televisão.
Um amor para conversar no domingo à noite, quando se tem a
sensação que emendaram umasemananaoutra sem parar nem para respirar... ufa!Que rache as contas da casa, do
plano de saúde, da escola dos filhos, mas sempre pague sozinho o restaurante,
só para eu achar bonitinho e me sentir como nas primeiras vezes. Que adore
viajar juntos, rir juntos, comer juntos, brindar juntos, dormir juntos e até
chorar juntos.
Que converse bastante quando eu me trancar e não querer sair
de mim e que ouça com atenção quando eu precisar falar pra não pirar. E que se
tranque no banheiro por 20 minutos quando eu puxar uma briga – para que eu não
estoure de vez e me arrependa depois. Vinte minutos é tempo suficiente para que eu
tenha me recomposto quando ele sair de lá, com a cara mais lavada, dessa vez
pra gente conversar.
Sim, eu quero! E daí que eu sou influenciável e que essa temporada
de buquês, vestidos e bolos de noiva já, já passa e eu vou continuar na
correria das redações e recorrendo a algum boteco com amigos no fim de semana –
ou mesmo na segunda-feira - para aliviar a alma? Quero mesmo é que ele também
esteja comigo no boteco rodeado de jornalistas, mesmo que não entenda patavinas
do que é um “lead”, “release”, “dead-line”, “pauta chiba” ou sequer saiba que “a
barriga dada pelo concorrente” nada tem a ver com gravidez ou estar acima do
peso. Quero ele lá, lindo, entrosado e se interessando pelo meu mundinho e os
meus.
Não precisa abrir sempre a porta do carro e puxar a cadeira,
mas que faça questão em abrir as portas da casa dele para a família me receber.
E por mais que ame a mãezinha dele, lembre que eu sou diferente dela e foi a
mim que escolheu para viver feliz o resto dos dias. Isso mesmo. O resto dos
dias, "até que a morte nos separe. Amém!" Porque casamento e família ainda são
sagrados para mim e deve ser pra você também, meu amor.
Que tenha valores semelhantes aos meus, acredite em Deus e
já tenha criado um cachorro. Li outro dia que bons donos de cachorros têm tendência
a serem bons pais – literatura barata, eu sei, mas não custa não duvidar. Que me faça lembrar que ir pra night é bom, mas estar bem acompanhada é ainda mais. Que me erga quando eu pisar na bola ou o chão se abrir, engolindo tudo.
Um
amor como o de 'Lizzy e Darcy' que se
sobrepõe a tudo e assim eu possa dizer: “sim, mil vezes sim”, mas sobretudo
que seja real, honesto e multiplicador como o dos meus pais, meus avós...
Sim, eu quero um
amor pra casar.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Almas perfumadas
Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Lula*, para me falar de amor.
(Ana Cláudia Saldanha Jácomo)
(*) No texto é Edith.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Recomeçar
"Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça."
(Cora Coralina)
(Cora Coralina)
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Aromas*
Por: Marcelo (Panela) Tavares
Marcaram na cafeteria às 19h. Ele não gostava tanto de café, mas não seria tolo para recusar o convite. Ela, por sua vez, viajava no aroma dos grãos. Parecia levitar entre os cafezais sem tirar os pés do granito.
- Você não vai pedir o seu?
- Não. Eu não sou muito fã...
- Pois eu adoro café a qualquer hora!
- Eu posso só ficar olhando pra você?
Ela riu e continuou a mexer o café com a precisão de quem abre um cofre antigo. Sete voltas no sentido horário, com diminuição de velocidade a partir do quinto círculo. Nem mais, nem menos. O rapaz não via aquilo com espanto ou curiosidade, mas como um jeito divertido de conhecer suas manias. Ninguém sabe definir a partir de que ponto as retinas se alinharam. Ele disse que foi logo depois que os cubos de açúcar derreteram, ela bateu o pé e afirmou que tudo aconteceu depois do segundo gole. Para a garçonete, que viu e ouviu a gostosa discussão, o estopim foi o toque involuntário das mãos na troca do cardápio. Os dois concordaram. A noite continuou com goles, pausas, sopros e sorrisos. Despediram-se com promessas de um amanhã. Cada um levando para casa o sabor do café na ponta da língua.
(*) Texto feito especialmente pra mim (eba!), em 9 de dezembro de 2009 e publicado lá no oquemaisninguemve.blogspot.com.br do meu querido Panelovisk!
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Acasos
"O acaso tem seus sortilégios, a necessidade não. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se encontrem nele desde o primeiro instante como os pássaros nos ombros de São Francisco."
(Milan Kundera,em A insustentável leveza do ser)
(Milan Kundera,em A insustentável leveza do ser)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Pretensiosa. Era assim que agora se via. E enxergava mais: quanta besteira em tal pretensão (porque toda pretensão guarda um muito de burrice).
Achar que o amor não iria acontecer de novo?
E se se que seria a primeira. E pior, ser única?
Como se estivesse em tal estado de elevação?
Agora se via nua. Despida de quaisquer resquícios de ilusão que nem sabia existir.
Sentia-se traída, muito mais pela ignorância do que pelo amor que acontecia de novo.
Via-se no canto da sala, como escultura sem roupas. Foram rasgadas. Roubada. E se agachava do pedestal na tentativa de esconder o corpo.
Esconder o que era, o que foi um dia, o que ainda poderia... se não fosse o amor a acontecer de novo.
Quanta pretensão achar que ele não viria (ao menos pra você)!
Achar que o amor não iria acontecer de novo?
E se se que seria a primeira. E pior, ser única?
Como se estivesse em tal estado de elevação?
Agora se via nua. Despida de quaisquer resquícios de ilusão que nem sabia existir.
Sentia-se traída, muito mais pela ignorância do que pelo amor que acontecia de novo.
Via-se no canto da sala, como escultura sem roupas. Foram rasgadas. Roubada. E se agachava do pedestal na tentativa de esconder o corpo.
Esconder o que era, o que foi um dia, o que ainda poderia... se não fosse o amor a acontecer de novo.
Quanta pretensão achar que ele não viria (ao menos pra você)!
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Do chão o céu é bem maior

Tinha alcançado o cume do morro e de lá contemplava a imensidão. A vontade de mergulhar pareceu inevitável. A idéia da queda parecia libertadora aquela altura - cerca de 30 ou 40 metros acima do nível do mar. A vontade de viver era tamanha que se jogar era sinônimo de experimento e nada tinha com o desespero suicida. Os dois ou três segundos de vôo guardava uma liberdade eterna. Queria sentir tudo, depressa, se propagando na velocidade do peso, com a infinita ganância de chão. Com uma ponta de inveja dos agulhões e garças que se atiravam do alto para flechar a água em busca de peixe, se estendeu e debulhou a areia fina. Do chão o céu é bem maior.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Resolveu que iria parar o tempo. Ou ao menos deixar que ele corresse seu curso sem mais questionar. Interrogações como ‘quando?’ não fariam mais parte de sua vidinha. Afrouxar o fecho dourado e colocar o relógio na caixinha vermelha foi só uma das decisões. O pulso seria espaço para continhas coloridas e pedidos em três nós ao senhor do Bonfim. Esqueceria a idade (favor para qualquer mulher). Adotaria aquela que melhor se adequasse ao riso do dia. Inversamente proporcional a largura da alegria no canto da boca. Não importava se foi perdido, o tempo teria outro significado. Como o açúcar que forjado em mil giros torna-se algodão cor de rosa - ou sem cor. Teria a graça que a fome exigisse.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Ciranda

Ela girava descalça. As rosas na barra do vestido pareciam querer semear o dia de cores novas. Lançar alegria naquele solo frágil. A aridez dos últimos tempos tinha ressecado o chão e os lábios.
Rodava sem sair do lugar. Como se o movimento pudesse lhe indicar por onde ir. Temia descambar pro lado de lá. Bêbada. Com o coração na mão e alguns poucos gritos no colo, esperando o momento de explodir.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
Beijo, beijo, beijo. Te amo, te amo, te amo.

Estava cansada, suja, descabelada depois de um dia puxado de trabalho. Meus pés latejavam de cima do salto e eu só pensava em chegar em casa e me deitar depois de um bom banho. Já estava tudo programado. Seria na seqüência: abrir a porta, largar o salto e a bolsa no quarto, me besuntar de hidratante depois da ducha e dormir o sono da primeira infância, mas parei.
A seqüência foi quebrada ao acender a luz do quarto. O livro aberto sobre a cama trazia a página marcada com o pequeno sorriso. Aquele sorriso que todos os dias me alegrava, que tanto me confortou e me fez ser o que sou. Desejei vê-lo rindo só mais uma vez. E fechei os olhos para segurar a lágrima e de repente o quarto se encheu com o som da sua risada. Risada fácil, que vinha até em situações em que merecia não aparecer.
Naquela foto, no marcador, ele me pareceu tão terno e vivo como todos os dias em que adentrava pela porta do quarto para me beijar. O beijo mais doce que já pude receber de um homem. E ele o era não só no gênero, mas em toda a grandeza e simplicidade da palavra. Desejei só mais uma vez, me irritar quando puxava meu pé e mandava ‘pular embaixo’.
Paralisada, de pé, em frente a cama, o vi envelhecer enquanto eu crescia em lembranças de tempos que vão longe, mas que se faziam tão perto, tão real, que quase pude tocá-lo quando novamente ele me sorriu. E era o sorriso mais doce que já pude ver em um homem. E ele o era não só na palavra, mas em todos os gestos, exemplos, carinhos e lágrimas. Desejei só mais uma vez erguê-lo em meus braços e fazer com que sentisse que meu amor era grande e forte o suficiente para agüentar o peso da nossa separação.
As imagens se multiplicavam e o cheiro do seu olhar tomava conta não só do cômodo em que nos encontrávamos, mas de mim. Pensei em erguer a mão e pedir a bênção, quando ele inclinou a cabeça para encostar na minha. E senti seu corpo cansado me proteger e repetir nosso refrão: “- beijo, beijo, beijo. - te amo, te amo, te amo”. E era a declaração mais sincera que já pude ouvir de um homem. E ele o era não só enquanto humano, mas em toda sua alma. E desejei só mais uma vez poder abraçá-lo, ver as rugas marcarem seu rosto e ter a certeza que teria em quem me segurar se o mundo se abrisse debaixo dos meus pés.
Seu amor me envolvia como a uma criança, embalava e ensinava a ser do tamanho que o sonho pede e a realidade impõe. Sempre me deixou tomar as minhas decisões, mesmo ouvindo todas as hipóteses. Não precisava ter medo, seu abraço estaria ali. Desejei só mais uma vez chorar no seu colo, enquanto mexendo no meu cabelo, contaria histórias engraçadas do seu tempo e experiências que o trouxeram até ali. E era o melhor refúgio que já pude encontrar em um homem. E ele o era em toda sua fantástica sabedoria de ser de Deus.
Não sei quanto tempo passou, nem olhei o relógio naquela hora. Sentada na cama, só tinha olhos para aquela pequena imagem, agora já em minhas mãos (e em todos os sentidos), que me encantava com seu sorriso mágico. “E amou-os até o fim”, era o trecho marcado naquela página. E eu desejei amá-lo só mais uma vez. Porque ele não era só um homem, mas a manifestação do amor, o mestre, o amigo, o meu pai. E pai em toda sublimação e abrangência do ser.
Beijo, beijo, beijo. Te amo, te amo, te amo.
*Quatro anos sem você e eu continuo com o mesmo desejo de poder falar e ouvir você responder o nosso refrão.
(Texto de fevereiro/2009)
sábado, 7 de maio de 2011
Fez menção de voltar, girou o corpo e deu de cara com a porta. A força pra evitar o esbarrão fez desandar dois passos para trás e um sonho acima, até restabelecer o equilíbrio. Ainda trôpega e vacilante, repetiu em silêncio e depois para ouvir a própria voz: o caminho é adiante. Não dava mais para retornar. Na verdade, nem queria. Foi um ou dois segundos de medo e a tentação de uma última espiadinha. O mundo todo pela frente e o desejo medíocre de uma porta fechada.
domingo, 3 de abril de 2011
Tomando a vida pela mão

O mundo girava em cores alternadas, dando o tom dos dias vividos. Por ora, a alma se tingiu de amarelo e resolveu sair pra dançar. Rodopiava, deixando olhos atiçados e queixos caídos em derredor da saia. Depois de embriagar com o odor afrodisíaco do pigmento berrante, ditava o passo a seguir. Sabia (se) pintar. Não queria ser levada. Desde pequena optou por conduzir.
quinta-feira, 31 de março de 2011
Dica de livro: Adeus, China. O último bailarino de Mao – Li Cunxin

Sim, eu gosto de (auto) biografia. E esta em especial me tocou. Não porque se tornou Best-seller no mundo, mas por tratar de um assunto universal: a família. “Você vai chorar muito”, alertou a amiga. E eu me debulhei. A leitura fácil e fluente envolve e causa ansiedade de avançar as páginas, ao tempo que dá saudade só em pensar em abandonar a vida dos personagens ao chegar ao fim (sim, eu sofro de saudade a cada livro). Se vai do riso às lagrimas, da indignação ao sentimento de identificação - como se a história se passasse aqui, do lado – fácil, fácil...
Pois bem, chega de enrolação. O livro conta a história de superação de um menino - Li Cunxin - fadado a ser mais um lavrador de vida miserável na China absolutista de Mao Tsé-Tung. Uma viagem no tempo e na história oriental. Destinado aos inhames secos – principal e odiada refeição da família – o sexto de sete filhos vê a sorte mudar nos primeiros anos de escola. Absorto em observar os pássaros, em detrimento dos sacros escritos do livro vermelho de Mao, Cunxin é escolhido pelos chefes políticos a integrar a Academia de Dança de madame Mao.
Daí se desenrola inúmeros percalços e conflitos pessoais: a separação da família, a saudade consolada pela colcha feita pela niang (mãe) ou nos galhos do salgueiro-chorão, o desinteresse e nenhuma desenvoltura para os movimentos do balé. Impossível não se comover com o choque descrito entre a fartura com que se deparou na mesa da escola de Pequim (e em tantas outras ocasiões no Ocidente) e a lembrança da penúria da família, em Quingdao.
O livro revela curiosidades da cultura oriental, como costumes à mesa, o preparo da comida, a comemoração do ano novo chinês, o hábito de enfaixar os pés das meninas para que se tornem mulheres mais atraentes, apesar de comprometer a mobilidade. O primeiro capítulo descreve a cerimônia de casamento dos pais – forte e comovente. A rigidez imposta pelo regime ditatorial onde um abraço em público era infração; ser rico era motivo de condenação, tamanha a alienação do povo que acreditavam e seguiam Mao, enquanto deus.
Após se destacar na Academia de madame Mao, incitado a buscar “a polpa da manga” pelo professor Xiao, surge a proposta de um curso de verão, no Houston Balet, na “terrível e sofrida” América. Pronto. O passaporte para o estrelato no Ocidente. Nos Estados Unidos, o então líder da Juventude Comunista de Mao não resiste a tentação de comparar custos: uma malha e uma sapatilha chegam a valer meio ano de salário do dia (pai).
O choque cultural, a sensação de traição de ter sido enganado a vida toda por uma propaganda política perversa, o gosto da liberdade experimentada em solo proibido, a determinação em ser o melhor para honrar os pais, conduzem-no a deserção e anos longe da família. A fé comunista se desfaz. E surge um novo astro comum aos céus do Oriente e Ocidente: o último bailarino de Mao.
Superecomendo a leitura!!
sábado, 26 de março de 2011
Sentou na ponta da cama na falta do que fazer. A luz entrava fraca pela janela. Não havia o que falar e nem quem ouvir. Continuou um ou dois minutos na mesma posição. Sem nada esperar. Era assim que se sentia: sem expectativas. Há tempos a vida andava sem fim. Ou começo. Seguindo um script ditado pela rotina de sobrevivência e sorrisos para disfarçar a solidão. Coração cansado de neblina custava à alma flutuar. Pesava, puxando pra baixo. Olhou as unhas dos pés sem esmalte. Pálida e sem brilho. Deitou. Rolou pro canto e ficou decifrando o silêncio. A parede fria do quarto virou companhia na noite de sábado.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Para guardar a amizade

Por que a gente já é amiga há uns quase 30 anos, tempo que Deus programou que eu a encontraria para dividir a jornada, mesmo que o encontro tenha ocorrido somente há uns oito, nove anos. “Tempo de Deus é coisa que a gente não cronometra. É diferente do nosso”, explicou meu pai, certa vez.
Foi em meio ao terror do trote, no fundão da sala de aula, que nós, calouras de jornalismo, fizemos o primeiro contato. Ou o primeiro socorro, eu diria. Já que eu - do alto do meu salto e manchada de tinta de cima a baixo – havia esquecido o meu celular e tive que pedir o dela emprestado para avisar ao namorado de então, para vir me buscar mais cedo. Desde então ficamos próximas.
Não faço idéia de quantas lágrimas, ligações, abraços, sorrisos (largos), puxões de orelha, guarda-roupa, quartos, TPMs, críticas sobre o lead ou a postura, viagens, pilequinhos, festinhas, preocupações, deprês, fotos e resenhas já compartilhamos nesse meio tempo. Sim, ela também estava lá quando meu pai partiu. E segurou minha mão e coração nessa e numa ruma de outras vezes.
Se a profissão é o que nos aproximou, é fora das redações que nos identificamos. E a gente é bem diferente, apesar de muitos confundir o nome, como os professores na época da faculdade, ou a moça da loja de sapatos ao achar que as bolsas vão para o mesmo endereço. "– Não, a gente não é irmã!" (risos). E até é, mas em outra versão. Somos amigas-irmãs, por escolha nossa e providência divina.
Já superamos a fase dos melindres no trato, do “o que será que vai pensar se”. Falamos o que achamos sempre, mas sem perder o respeito. Nisso, até as brigas, discordâncias, grosserias e ausências perdem espaço para o perdão. Ela me fez mais racional. E eu fiquei feliz no dia que descobri, por trás daquela firmeza, um coração. Talvez seja essa troca que nos faz parecidas na aparência e faça com que nossas famílias nutram um amor pela outra, muito mais de ouvido. Por que ela sempre está em algum exemplo ou conversa, mesmo quando não está por perto.
É pra ela que eu derramo a alma, solto segredos e peço reza, muita reza. Sim, porque eu não devo ter jeito e, vira e mexe, meto os pés pelas mãos. Só Deus nessas horas. Chegamos a conclusão que nossos conselhos – nunca seguidos por quem o dá – servem somente e muito bem para cuidar da outra, mesmo que ela também não siga. Besteira, a gente quer é ver a outra feliz!
Minha mãe me ensinou que amigos são como anjos. Ela com certeza deve ser um, meio atrapalhado e tagarela é certo, mas com asas abertas para me envolver. E faz parte do time (é, porque a vida é generosa comigo e além dos anjos lá de casa, há outros que assim posso chamar) que me ensina que é possível voar vôos maiores. E eu me atiro e comemoro ou me estatelo junto, ali.
E depois de tantos anos de convivência, hoje ela me deu uma caixinha. A tampa define o que somos: “Amigas irmãs”, que ”choram, riem, defendem, aprontam, perdoam, telefonam, brigam, divertem, escutam, ajudam, emprestam, abraçam, compartilham”.
E minha irmã, a de sangue e coração, perguntou para guardar o quê.
– Essa é uma caixinha para guardar a amizade.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Silêncio
Enxurrada de silêncio arrastando palavras.
Lava calçadas.
Arrasa mundos.
Pedras mudas a se mover.
Fazem ruído de ensurdecer dor.
Desfaz paisagens.
Ficará o que dizer?
Troveja lembranças.
Quebra a esperança o que não foi dito.
Sonhos sendo levados,
bóiam em meio a sacos plásticos.
Perdem a cor.
Socorro que não vem.
Caem tendas, telhados, promessas.
Fecha o céu.
Temporais se calam.
Abre a boca.
Córrego de frases soltas.
Lágrimas escorrem ao largo.
Sentimento de perda.
Palavras – era tudo o que eu tinha.
Cratera divide em dois o pronome.
Interrompe.
Estica os ouvidos para erguer pontes.
Batentes à porta esperam outras inundações.
Pingam gritos anunciando o bom tempo.
Em breve acaba o verão.
Vento no fim da tarde sussurra.
(Este é o som que interessa).
Olhares cochicham.
Segredo.
Silencia em paz.
(Em) siiiiii...
Lava calçadas.
Arrasa mundos.
Pedras mudas a se mover.
Fazem ruído de ensurdecer dor.
Desfaz paisagens.
Ficará o que dizer?
Troveja lembranças.
Quebra a esperança o que não foi dito.
Sonhos sendo levados,
bóiam em meio a sacos plásticos.
Perdem a cor.
Socorro que não vem.
Caem tendas, telhados, promessas.
Fecha o céu.
Temporais se calam.
Abre a boca.
Córrego de frases soltas.
Lágrimas escorrem ao largo.
Sentimento de perda.
Palavras – era tudo o que eu tinha.
Cratera divide em dois o pronome.
Interrompe.
Estica os ouvidos para erguer pontes.
Batentes à porta esperam outras inundações.
Pingam gritos anunciando o bom tempo.
Em breve acaba o verão.
Vento no fim da tarde sussurra.
(Este é o som que interessa).
Olhares cochicham.
Segredo.
Silencia em paz.
(Em) siiiiii...
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Saudade
Hoje, no caminho de volta para casa, senti falta do seu abraço. Lembrei das vezes que partilhamos corações partidos. Era tarde, havia silêncio e escuro no quarto. E você, com seus cabelos brancos e sorriso fácil, irradiava luz ao estancar minhas lágrimas com confidências de desencontros e despautérios da vida de solteiro. “Todo mundo sofre disso um dia, filha”.
Se fechar meus olhos, ainda consigo ver os teus e aquela ruguinha formada no canto rindo pra mim. Se abri-los, também. Dá pra sentir a umidade e o sal da lágrima empoçada no côncavo entre meu rosto e sua perna, local apropriado para afogar desilusões.
O peso da mão e o toque dos dedos entre meus cabelos oscilavam entre o instinto de proteção e um desejo contido de esganar o autor de tamanha desgraça mexicana - se soubesse quem era, claro.
Que bom que você não descobriu o responsável por aquele dramalhão. Que bom que este momento existiu para nos fazer mais cúmplices.
Em meio a cacos e estilhaços e histórias de paixões mal e bem vividas, você (re)construía em mim um novo coração - passível de outros erros e ainda carente dos teus remendos. Que bom que você me fez entender que “O melhor ainda está por vir”.
E hoje, no caminho de volta para casa, não havia mais pedacinhos pra juntar, nem dor de amor, sequer desilusão. Mas naquele silêncio da tarde, desejei mais uma vez teu colo e compartilhar desencontros e despautérios desse saudoso coração.
Se fechar meus olhos, ainda consigo ver os teus e aquela ruguinha formada no canto rindo pra mim. Se abri-los, também. Dá pra sentir a umidade e o sal da lágrima empoçada no côncavo entre meu rosto e sua perna, local apropriado para afogar desilusões.
O peso da mão e o toque dos dedos entre meus cabelos oscilavam entre o instinto de proteção e um desejo contido de esganar o autor de tamanha desgraça mexicana - se soubesse quem era, claro.
Que bom que você não descobriu o responsável por aquele dramalhão. Que bom que este momento existiu para nos fazer mais cúmplices.
Em meio a cacos e estilhaços e histórias de paixões mal e bem vividas, você (re)construía em mim um novo coração - passível de outros erros e ainda carente dos teus remendos. Que bom que você me fez entender que “O melhor ainda está por vir”.
E hoje, no caminho de volta para casa, não havia mais pedacinhos pra juntar, nem dor de amor, sequer desilusão. Mas naquele silêncio da tarde, desejei mais uma vez teu colo e compartilhar desencontros e despautérios desse saudoso coração.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Feliz vida!!
Aos queridos de sempre.
Aos que se juntaram à essa ciranda ao longo do ano.
Aos que encontro de quando em vez, apesar da vontade de ser mais presente.
Aos que o jornalismo se incumbiu de aproximar.
Aos que acompanham essa barra de rolagem.
Meus melhores desejos.
Que cada coração se torne manjedoura para acolher o Deus menino e que a alegria e a paz desse encontro perdurem durante todo o ano que já, já se inicia.
Mais luz e bênçãos a todos!
Feliz vida, queridos!
Beijos.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Desabafo de Natal

Esses dias, recebi o desafio de uma criança de seis anos de escrever pro bom velhinho, achei graça e aceitei. Só que, fazendo uma retrospectiva, se esta fosse uma cartinha para o Papai Noel, não sei se teria o brinde ao final. É dia 20 de dezembro. Faltam dez dias pra 2010 acabar e a sensação é que foi tempo perdido. Não consigo lembrar, apesar do esforço, de coisas a comemorar. A não ser por bênçãos como saúde, família, amigos...
Mas falo de conquistas pessoais. O ano termina sem que eu tenha vivido um grande amor ou sequer encontrado um novo. Ao contrário, o namoro de uma vida [que eu queria que fosse pra vida] acabou no meio do ano e desde então eu não encontrei outro. Pior, ainda dói a saudade do antigo, que a esta hora deve estar em algum ponto da costa brasileira, sem lembrar de mim ou fazer idéia da falta que anda me fazendo.
Não, este também não foi o ano que eu consegui a estabilidade financeira e os bens duráveis, como o apartamento ou o primeiro carro. Apesar de ter sido o ano que fiz 30 anos [e isso soa velho], eu ainda moro de favor na casa da irmã e nos fins de semana me mudo pra minha cama, em Goianinha. Eu sei que muitos não tem nem isso, mas seria bom ter um imóvel pra chamar de meu.
Pensei mesmo em me livrar da conturbada vida de usuário do transporte coletivo, mas o máximo que consegui juntar pra isso não dá para uma boa entrada e parcelas mais acessíveis. Tenho medo de assumir prestações a pagar com o meu “invejável” salário de jornalista [R$ 900,00] e ser mandada embora em breve, por que há três meses estou fora da redação, por conta de um entorce no tornozelo direito.
Às vezes, me pergunto se não seria melhor mudar de profissão pra ter uma renda melhor e quem sabe assim, facilitar a aquisição dessas coisas... mas não consigo imaginar o que poderia fazer. Nessas horas sinto ainda mais falta do meu pai. É impossível não pensar que tudo seria melhor se ele estivesse aqui - mesmo que eu encerrasse o ano com os mesmos lamentos.
Adiei os cursos, os concursos, tudo sem maiores explicações. Por alguma preguiça gigante ou crença na minha incapacidade. Não aprendi outro idioma e nem comecei a pós-graduação. Não ajustei a planilha e a agenda para que coubessem. Não investi em mim.
Não estive o tempo possível com a minha família e isso não faz bem. Passei muito tempo em redes sociais sem me relacionar, de fato, com uma gente que nem me conhece. O número de pessoas que realmente me valem e consegui ver, encontrar, conviver nesses 12 meses foi tão pequeno. Queria ter ficado mais com eles, amigos queridos, que me são tão caros e alguns vi só uma ou duas vezes.
Não fui para shows, cinema, teatro, praia, igreja o quanto queria. Não comprei os livros, sapatos, DVDs, perfumes e o escapulário de ouro branco que desejei. Não me alistei em nenhum trabalho voluntário e nem paguei o dízimo. Não fui à academia e nem conheci um lugar diferente, naquela que seria a viagem pra comentar pro resto da vida.
E depois de escrever quase uma lauda de reclama.. ops, reflexões, percebo que isso aconteceu por falta de fé, de norte, de ânimo, de incentivo, ou seja lá qual o nome queira dar. Embora rezando pouco e de quando em vez, acho que não tinha muito em que acreditar e fui deixando passar os 365 dias sem muitos propósitos. Penso que desisti de mim nesse período. Não sei dizer se isso é esperar acontecer ou não saber fazer a hora, como naquela música que, inevitavelmente, vai tocar nestes últimos dias antes de 2011 chegar. Talvez os dois.
Este foi um ano que vivi à passeio e, antes mesmo dele acabar, já sinto saudade de voltar e me encontrar.
Por isso, se esta fosse uma cartinha pro Papai Noel, gostaria apenas da pueril fé de saber pedir e acreditar.
domingo, 19 de dezembro de 2010
Sede de mar

Sufoca debaixo do silêncio
um lírio sob o sol
no pingo do mei’dia
Aridez empurra os dias ociosos
levanta poeira entranhada de outras vidas
Tempo feliz e próximo
e ido
Chão vermelho
longe o azul
Dá passagem o inaudito
Terra batida
pisada por tantas gotas de chuvas
pés que há muito não se veem
Sente saudade de nuvens para esverdear
Cor de esperança
cansada por demais da demora
Ardia
Estrada aberta para levar
encontrar vida
Lavar no mar para renovar
Barulhinho de onda arrebentando longe
com vontade de chegar
Partiu
Garganta seca
busca umidade em algum céu
da boca
Por aqui, só o vento arranha
Assovia ramos ressequidos em caracóis
Sem eco
Lilácea queimada de sol
delira
O calor faz tremer sem voz
Seca as pétalas
Ausência que asfixia e cala
Sem notícia
Nem resposta
Faz brotar lírio desse chão sertanejo
sedento de mar
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Felicidade
Felicidade é assim. Enche tudo tão fácil, que não sobra um cantinho vazio, mesmo quando cabe ainda mais e mais.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Diálogo
Fim de tarde. Preguiça gigante. Calor ainda maior. Conversando potoca na net.
Amigo descobre o blog e comenta:
- Oi, li seu blog. Massa. Mas não entendi.
- O que?
- Você está falando de você?
- Sim, por que?
- Estranho, não consegui te reconhecer.
- Não? Por que?
- A pessoa ali é frágil. E sempre vi você como pessoa que gosta mais de dar afeto do que receber.
- [Oi?] Agora fui eu que não entendi.
- É, vc é muito carinhosa, não sobra espaço para receber.
...
- Hmmmm...
Ainda não sei dizer se isso foi crítica ou elogio.
Amigo descobre o blog e comenta:
- Oi, li seu blog. Massa. Mas não entendi.
- O que?
- Você está falando de você?
- Sim, por que?
- Estranho, não consegui te reconhecer.
- Não? Por que?
- A pessoa ali é frágil. E sempre vi você como pessoa que gosta mais de dar afeto do que receber.
- [Oi?] Agora fui eu que não entendi.
- É, vc é muito carinhosa, não sobra espaço para receber.
...
- Hmmmm...
Ainda não sei dizer se isso foi crítica ou elogio.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Linguagem fácil a do abraço

Usava os braços para se comunicar. Desde pequena foi iniciada nesta arte de buscar mãos, pulsos, cotovelos e ombros para sentir o que cada contorno tinha a falar. Afeita a palavras e toda sorte de construções, o que mais lhe encantava, no entanto, era decodificar a estrutura física, rica e completa em expressar mais do que arranjos gráficos, desnecessários e sem calor. A anatomia poética desde a clavícula até as falanges insinuava a graça de mover mundos - mesmo quando estes giravam em silêncio. Gostava de descobrir o cheiro e a semântica em cada abraço. Os membros superiores estendidos da mãe a lhe envolver, depois de esfolar o joelho (ou quando acordava no meio da noite), exalavam fonemas de paz. Naquele turbilhão, auscultava versos e cantigas vindas da palma da mão. Já era ciranda. Na mesma espécie de estrutura aberta e coerente do pai encontrava chão, mesmo quando o discurso não tinha concordância e asperava prolixo. Linguagem fácil a do abraço. Lágrimas nunca foram suficientemente resistentes a eles. Suspeito que bocas e corações também não. O ritmo e a intensidade em que os braços passeiam fazem saber as intenções. Verbete farto de conotações. Aquecem. Apertam. Se acham. Consolam. Se largam. Comemoram. Crescem. Erguem. Reencontram. Despedem. Educam. Amam. Falam por si só. Um dicionário cheio. Plural. Preenche qualquer vazio. O mundo poderia ser mudo e iletrado e ainda assim, ficar ali, entregue, proseando com o silêncio dos abraços.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Trânsito, caos e silêncio
A distancia encurtava à medida que o carro avançava e o silêncio se alargava por toda avenida. Deu-se conta, pela primeira vez, do ódio que nutria pelo sincronismo dos semáforos, que insistia em dar passagem com suas luzes esmeraldas. Ansiava pelos poucos segundos do sinal na cor do pecado, na esperança que as palavras saíssem de forma a ordenar aquele caos. Mas a velocidade era constante, assim como a angústia pelo momento certo. O mp3 djavaneava alguma canção que contrastava com a rouquidão do trânsito. Sentia pressa de apertar o freio e fazer parar ali aquela confusão de sentimentos, quem sabe assim a coragem surgiria, numa trombada, fazendo sacudir as convicções e incertezas. Deixando tudo muito estilhaçado para se reconhecer um e outro. Juntar seria a questão? Dizer o quê a essa altura da via? Nenhum sinal fechou. Sentia-se em ponto morto. Olhava de vez em quando o rosto bem barbeado, os braços torneados a insinuar um toque na perna a cada mudança de marcha. Pela janela, via uma velha senhora calmamente dando partida, sem se importar com as buzinas irritadas que lhe xingavam logo atrás. Queria se juntar ao coro e praguejar algumas blasfêmias àquela nostalgia toda que a desconsertava e a fazia não saber como agir. Ensaiou algumas frases, o coração desgovernado embalou uma correria, mas ainda esperava o momento, a coragem. E finalmente, o carro parou. Olhou praquele rosto sombreado e com um beijo do lado se despediu sem nada dizer.
Quem sabe outro dia?!
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Cafezinho, sonhos e nada mais

Sem jeito, os dedos se esbarraram a caminho da tampa do açucareiro, forçando os olhos a repetir o movimento. Há tempos esperavam se cruzar. Talvez só o toque fosse suficiente ou duas colherinhas para adoçar a amargura dos dias. Ele disfarçou.
- E o que você faz quando não dá para realizar?
- Eu sonho, disse ela sem desviar as mãos ou o olhar.
A resposta esboçou nele um sorriso de autocomiseração. Ela decodificou a possibilidade. Entreolharam-se mais uma vez e, rapidamente, voltaram às xícaras de cafés e tragaram a realidade em pequenos goles.
domingo, 24 de outubro de 2010
Egoísta
Não ser notada como antes levantou uma ponta de egoísmo, desses que a gente se pergunta o que está acontecendo. Quinze minutos e algumas amenidades. Será que seria demais pedir outros quinze? Ou tenho pedido demais ultimamente? Não para as duas questões. Há meses tenho sentido este distanciamento. Já não nos falamos como antes. Deixei de ser sua confidente, justo quando tenho tanto a falar e nenhum ombro por perto. Queria dizer das minhas angústias, dos projetos que brotaram no ócio e receber sua penitente redenção em análises e sorrisos estrondosos. O que dói mais é este silêncio. Há de ter mais palavras entre nós. A gente cresceu junto e se conhece tanto e ele agiu sem me ver. Nem perguntou se eu precisava estar com ele. Não o culpo. Talvez seja minha carência, acentuada esses dias todos quieta, trancada, limitada a andanças mancas do quarto para sala e a pequenos passeios às sessões de fisioterapia. Talvez sejam os poucos mais de 50 quilômetros que nos separa e as raras ligações feitas nos últimos dias. Ele está sempre ocupado e eu o respeito. Outro dia sonhei com a morte e a dor era tão irremediavelmente real, como já senti um dia. Tenho vontade de abraçar por horas. Sinto a ausência do amigo. A vida é tão corrida, a gente trabalha tanto, que quando um para (mesmo forçadamente) sente necessidade do outro parar também. Pedir que me acompanhasse seria muito, eu sei. Mas não o é me levar consigo. É naquela vida que eu também quero estar. Será que ele está bem? O que se passa naquela enorme cabeça só menor que o coração? Eu não sei, se reservou. De repente me dou conta que crescemos e estamos imbuídos em nossas vidas. Cada um na sua. Em separado. Um hiato. Sinto medo de não darmos espaços para nós nelas. Quinze minutos e algumas amenidades não me são suficientes. Será que ele já se sentiu assim, quando era eu a encontrar outros ouvidos? Também fui negligente. Sou. Mas eu o amo tanto. Eu sei também que ele me ama... É que às vezes, também sou egoísta.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Noite
Era mais uma daquelas horas em que o coração aperta e você só deseja a força de um abraço. Como se o toque destes pudesse te redimir ou mesmo fazer emergir à luz. Ser envolta em asas de anjo e se aquecer por mais dois ou três minutos. É uma hora fria. Adiantada. Sem ruído. Madrugada adentro empurrando sem dar consolo. Não sinto a finitude, mas a falta de movimento. O quarto reflete a lua pela fresta da janela. Me sinto sozinha aqui, sem braços ou sonhos por perto. Só noite... por mais algumas horas.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando o coração sente falta da voz, do cheiro, da pele. Quando as recordações povoam o pensamento vago. Quando os olhos se cruzam, mas sabem que manterão a distância. Quando a conversa sai entrecortada de reservas, mesmo que o hábito faça a língua pecar. Quando você sente que não é, mas também sente pelo que foi. Quando tudo se transforma numa saudade certa de que não haverá adiante. Quando as cordas dalguma guitarra insistem em lembrar “Just keep me where the light is..."
Esses dias

Esses dias confinada, de perna pro ar, graças a uma torção (amanhã faz um mês), tenho pensado em quanto a gente perde tempo e se perde por não saber viver. Por não valorizar o que tem, o que pode, o que se é.
Mais difícil que ficar parada o dia inteiro, que sentir dor e me locomover com dificuldade é ter que depender. Aprendizado difícil esse! Por estranho que pareça, pedir não é fácil. E não é questão de educação, palavras ou etiqueta. Mas pedir porque você precisa de alguém para fazer/dar algo que seria automático de tão rotineiro, e a toda hora é mais cansativo do que fazê-lo.
Coisas simples e muitas vezes ignoradas - como molhar os pés na praia ou finalmente entrar na academia, mil vezes adiada - pode fazer falta, quando você simplesmente não pode, independente se quer ou não.
Sinto falta de tomar banho sem medo de cair, de fazer meu prato, de transportar qualquer coisa de cá pra lá, sem que as muletas derrubem. Sair de casa, trabalhar, encontrar pessoas, ver o mundo, viver.
Daí é que me dou conta:
Como a vida é veloz para nos determos a pequenices, ao invés de sermos mais plenos da Graça.
Como pessoas são tão mais do que as mágoas que causamos.
Como é melhor perdoar, porque pode não haver mais tempo.
Como tudo pode ser mais leve e colorido quando não estamos sós.
Como é bom ser quem somos, ter o que temos e viver como vivemos.
Mineiros
Ontem, vendo no noticiário o início do resgate dos 33 mineiros no Chile, pensei na fragilidade da vida, das limitações e do grande aprendizado que ela nos dá. E me emocionei pela nova chance que eles terão depois que a terra os pariu, com suas dores, aflições, medos, mas uma vontade de viver tão profunda. A ansiedade e a alegria nos olhos daquela criança ao reencontrar o pai, após 68 dias, é algo que não vou esquecer. Imagino que minha mãe e meu pai também tenham me olhado assim, quando nasci.
O mundo parou pra ver e vibrar com o milagre!
A vida e eles, os milagres, acontecem todo dia, graças a Deus!
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Pela primeira vez, depois de muito tempo, ouvi a música e ela não me machucou.
Achei estranho.
Repeti pausadamente cada verso, estrofe a estrofe, para ver se ainda existia. Mas não estava lá.
A letra pareceu tão lindamente mais leve.
Estranhamente, senti a falta da dor.
Do amor.
Parou.
O mp4 repetiu o último refrão.
Por onde passará o amor se a ponte quebrar?
Será que vai por água abaixo ou aprende a voar?
Achei estranho.
Repeti pausadamente cada verso, estrofe a estrofe, para ver se ainda existia. Mas não estava lá.
A letra pareceu tão lindamente mais leve.
Estranhamente, senti a falta da dor.
Do amor.
Parou.
O mp4 repetiu o último refrão.
Por onde passará o amor se a ponte quebrar?
Será que vai por água abaixo ou aprende a voar?
sábado, 25 de setembro de 2010
Papéis não guardam perfume

Ela respirou fundo, contou até três e abriu a porta. Acostumada à trava, a guardiã da passagem reagiu rangendo as toras de madeira. Ali, era local sagrado, havia de se fazer alguma resistência, antes de deixar qualquer desavisado se aboletar sem cerimônias.
Há tempos e por muito, foi habitado por morador um tanto desleixado. Destes que constroem jardim, mas se enfadam com as primaveras e deixam secar as roseiras e os malvões. Ou se contentam em recordar fotografias, como se das imagens amareladas pudessem fazer brotar novos botões. Contudo, papéis não guardam perfume. E aquele vermelho risonho, merecedor de corações e cabelos, desbotou. Uma pena! As cores deveriam reacender a cada nova estação. Mas não resistiram ao rigor do inverno. Não havia mais flores. Nem inquilino. Sequer espetavam os espinhos.
Mesmo desabitada, permaneceu trancada. Sem luz, morno, abafado. Até que desejou respirar. Jurou que seria no três e empurrou. Era tempo de deixar o ar, novamente, atravessar a soleira e renovar cada espaço. Carecia afastar a penumbra, espanar a poeira, trocar os sorrisos do porta-retrato e colocar alegria nos acordes daquela vida. Apressou-se em baixar um play list seleto em velocidade recorde, graças a mais recente versão do aplicativo em mp3. Haveria de ter a malemolência da bossa, a vibração da guitarra do jazz e alguma malícia e roquidão inerentes ao samba - como todo bom brasileiro.
E poesia! Cuidou em rever as estantes e prateleiras e guardar palavras para que não as faltassem quando estivesse ali. E dobrar segredos em pequenos pedaços de seda arrematados com sonhos a serem descobertos com o novo. Resolveu mudar a cor. Ao invés do azul cansado, caiou as paredes em lampejos de sol. E em cada canto borrifou cheiro de chuva fina. Rabiscos de crianças enfeitariam os cômodos e em tramas de nós deitariam desejos. A louça reproduzia a delicadeza das margaridas. Lembrou de comprar chocolates e jornal para o café. Treinou sorrisos faceiros e gargalhadas. Tudo deveria estar pronto (mesmo que ela não se soubesse também). Deixou o molho de chaves sobre a mesa e uma advertência de boas-vindas!
Suspirou receosa, mas fazia minutos que contara até três. Olhou o santuário vazio e sentiu que estava pra chegar. À entrada, pendurado por dobradiças de cobre, o portal de madeira parecia não ter certeza de se deixar como está. Aberto. Tal condição era algo quase esquecido e um tanto assustador - Não só para a porta!
Cartas - Clarice Lispector e Fernando Sabino

Washington, 25 setembro 1954, sábado.
Fernando,
estou com a impressão meio inventada de que você ficou zangado quando eu disse pelo telefone que não queria que você fosse ao aeroporto. Você ficou de telefonar à 1:30, e não telefonou. Fiquei amolada com a minha falta de cortesia, respondendo à sua gentileza com uma sinceridade ou franqueza que ninguém usa. Você gentilmente mostrou intenção declarada ou vaga de ir ao aeroporto, e eu, que tanto faço questão de não usar a alma na vida diária, pois é até de mau gosto, disse que não. Eu já lhe expliquei o motivo da minha rudeza -o que não a justifica- e explicarei de novo.
Para mim, sair do Brasil é uma coisa séria e, por mais 'fina' que eu queira ser, na hora de ir embora choro mesmo. E não gosto que me vejam assim, embora se trate de lágrima bem-comportada, de lágrima de artista de segundo plano, sem permissão do diretor para arrumar os cabelos... Não é por vaidade de rosto que não gosto que me vejam de olhos vermelhos, é por uma vaidade que, por ser menos frívola, é muito mais pecado: é por orgulho ou altivez ou seja lá o que for -enfim, vaidade mais grave.
Depois, também, eu me encabulo de estar sempre chegando e indo embora, o que obriga os amigos a um movimento em torno de mim, um movimento que às vezes nem cabe direito na vida deles. Então procuro dispensar a gentileza dos amigos, e facilitar a vida diária de cada um que já é bastante cheia e complicada sem uma ida ao aeroporto. Maury diz que eu costumo ter reações pessoais a coisas chamadas 'de praxe'. Parece que é mesmo verdade. Parece que eu seria capaz de pedir sinceramente a alguém que não apanhasse minha luva caída no chão para não amolar esse alguém, sem entender que incômodo é não apanhá-la, que incômodo é não fazer o que é 'de praxe'. (O exemplo da luva é só para exagerar, até que deixo apanharem minhas luvas, senão perderia todas...)
Quanta explicação! E provavelmente você nem ficou zangado com minha descortesia, provavelmente você não telefonou depois porque estava ocupado. É o que espero que tenha acontecido. Esperando também que você não ria das tolas e inúteis complicações de sua amiga.
Clarice

Rio, 19 de outubro de 54.
Clarice,
Suas 'complicações' não são tolas, mas inúteis. É verdade que você não precisa absolutamente se preocupar, não fui ao aeroporto porque você não queria e então acabou-se, e não telefonei porque na hora deve ter acontecido alguma coisa de que já não me lembro, e depois você já não estava. Mas valeu o desencontro porque forçou uma carta tão boa que parecia uma carta de Mário de Andrade e isso é elogio. Respondo agora me forçando um pouco (são 2 horas da manhã, me prometi não passar de hoje) pois quero ver se venço essa minha inércia mental com relação a cartas. Tanto mais que sinto necessidade real de escrever a você e vou deixando passar, talvez porque inconscientemente julgue que nada de importante tenho a lhe dizer, você sempre mereceria mais do que atualmente sou capaz de dizer numa carta. E sei como são importantes as notícias para quem está no estrangeiro.
Infelizmente não tenho nenhuma a dar, senão que tudo vai indo na mesma e se as coisas mudam é porque nada precisamos fazer para que mudem. Nada tenho feito e no entanto várias coisas mudaram. Não me mudei; continuando morando no mesmo lugar, para onde você tem a partir deste momento a obrigação moral de escrever. Preciso do seu estímulo - o de alguém que, não vendo as coisas de perto, tem mais perspectiva. E prometo responder, farto de notícias. Creia-me, esta carta já é uma vitória para quem não sabe mais o que dizer. Só é sincero aquilo que não se diz - e nem isso é meu, li em alguma parte. Como você vê, isso para um escritor é estar no mato sem cachorro. Abrace por mim ao Maury e acredite sempre na amizade do seu
Fernando
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Coleção Primavera/Verão

É incrível como, às vezes, a gente insiste em certas coisas. Não abandona velhos hábitos e tenta transformar quase em ritual. Só pra não desfazer a crença de ser a combinação certa. Como vestir aquela blusa surrada, que embora tenha custado caro e feito muito sucesso, atraído olhares e até sorte, já deu o que tinha de dar. Tanto te acompanhou que mais parece uma segunda-pele. E toda vida que se pensa em sair, abre-se o guarda-roupas e ela está lá. Sorrindo, se esticando do cabide para saltar nos nossos braços com promessas de repetir o mesmo frisson de antes. Engano. Mesmo que linda, não é mais adequada. Não combina com o saltão pink e a luz que trago no sorriso agora. Não tem o mesmo arrojo daquela época. Caiu de moda. E a tendência da nova estação traz a clareza do que se quer, o encantamento em estampa na cara, os babados de fim de semana e de segundas-feiras cinzentas, o ombro amigo bem trabalhado, o romantismo das flores sem ocasião e o toque dos tecidos que alisam as pernas e insinuam-se com o vento. É isto que quero. Cores. Alegria. Leveza. Quero a magia de escolher entre as peças dispostas na arara, aquela de caimento perfeito. O meu número. Deliciar-me com as provas, até encontrar aquele look de rua e de passarelas, com ares de beleza contagiante. E deixar todas com vontade de copiar o modelito de ser feliz. Por que é assim que tem que ser. Nada de tons fechados. Nada do último inverno. Quero o calor dos dias banhando as minhas horas em dourado. O luto acabou. Mesmo porque o preto é a cor que eu menos gosto. Não realça o tom da minha pele, nem dos meus cabelos e sonhos. Quero a cor da vida. Sóbrias. Vibrantes. Todas. Já, já começa um novo desfile. E mais uma vez estará na passarela alma e coração.
domingo, 12 de setembro de 2010

Não aguento mais escrever sobre o mesmo tema. E sentir a mesma coisa. E ter os mesmos anseios e medos. Hoje perguntei à amiga se foi o mais certo a fazer. Ela acha que sim. Vira e mexe me aparecem as dúvidas. E preciso que alguém me lembre o porquê. Por que tudo que consigo guardar é a gente junto. Os momentos bons, que foram muitos. Talvez seja problema de memória. Ontem, naquele quarto de hotel, sozinha, lembrei de tantas outras viagens. “Ainda bem que saudade não mata”. Que bom que isso é verdade.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Sem graça
De repente, perdeu a graça.
Sei até aonde caiu.
Ficou lá.
Mesmo sem ser esquecida.
Mesmo desenxabida.
A falta faz lembrar onde encontrar.
Todo dia.
Como música que impregna no cérebro.
Repeat on.
Toca sem parar.
Sem graça.
Sem tocar.
Perdida.
Sei até aonde caiu.
Ficou lá.
Mesmo sem ser esquecida.
Mesmo desenxabida.
A falta faz lembrar onde encontrar.
Todo dia.
Como música que impregna no cérebro.
Repeat on.
Toca sem parar.
Sem graça.
Sem tocar.
Perdida.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
E começar tudo de novo.

Quero a graça do encontro. Desvendar o inusitado. Permitir que outros caminhos sejam trilhados. Há outros mundos, além deste recanto. Despir-me dos antigos projetos e vestir sonhos novos. Em outras cores. Talvez verde. Ou já maduros. Sim. Porque há outras possibilidades. Não sei onde. Mas tem. Conhecer palavras ainda não ditas. Sentir o desdobrar da primeira intenção. Da segunda. O último pensamento do dia. O sorriso reservado na mesinha de cabeceira. A imaginação de ser identificada em alguma página de livro. Seja este o drama que perpassa todo romance, ou a nudez que atiça. Fotografar esperanças e catalogar momentos. Desejo a surpresa da mensagem em meio à reunião de pauta. A ligação que desperta no meio da noite. A gargalhada. O propósito faceiro no canto da boca. Até a lágrima. Sim. Porque ciclos abrem e se fecham sempre. Vai passar! E, outra vez, me deparar com a irremediável sensação de não poder consertar. Elevar-me pelo perdão. Ter satisfação de aceitar. A partilha das mãos, dos dedos, dos lábios e seus sussurros. Busco o grito que não fala. Desperta. A resposta dos olhos. O silêncio que perturba. Revirar na cama com a lembrança. Perder o sono em expectativas. Dormir aconchegada. Conservar a paz no trânsito engarrafado. Cantar a nossa canção (sim, porque quando você aparecer, teremos uma) sem pressa. Quem sabe seja Chico. Devagar. Cadenciado. Ouvir o coração se rasgar. Costurar almas. Ponto a ponto. Casa a casa. Alinhavar corpos. Atar em nó e desfazer. Pétala a pétala. Bem-me-quer! Receber a alegria das rosas e seus espinhos. Flutuar igual borboleta no estômago. Deixar ser arrebatada para uma estrela. Plainar cadente. Pisar o chão descalça e perceber as pedras. Sim. Porque há de ser real. Como o arrepio na nuca. Ser tocada de leve. Ganhar preocupações. Trocar codinomes. Provar outros sabores. Marcar os sentidos. Aguçar o nariz e sentir o gosto do vento contra o rosto e os cabelos. Se soltar. E respirar. Aliviar o coração das mágoas. Derramar outras histórias. Se esvaziar e encher tudo. Dançar ritmos até então não imaginados. Encantar. Aquecer. Gelar. E rir. E rir mais uma vez. Sim. Porque há outras verdades. Será possível atracar seguro. Crescer nas tormentas. E proporcionar calmaria. Poder se debruçar em nascentes metas. Erguer um lar. Conquistar o quintal e desbravar as linhas do teu rosto. Dar vida. Acordar com a fé de que valeu e vale à pena. E não ter medo de envelhecer ao seu lado. Sim. Porque a vida é grande demais para se propor a pouco. Porque eu recebi a promessa. Certifiquei o vindouro. Endossei o coração. E confio. Não sei de onde. Mas vem! Então, que se aproxime manso, até falho, mas não tarde. E anoiteça com luzes coloridas, enquanto retoco a maquiagem e o calor me pinta. Em uma, duas, três, quantas telas caibam nessa criação. Quero a magia do novo de novo. E seu velho recomeço. Sim. Porque o amor há de chegar. E renovar. Reinventar. E começar tudo de novo. Quero a graça do encontro. Desvendar o inusitado. Permitir que outros caminhos sejam trilhados...
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Rumos

Esteve sentada todo este tempo, sem saber para onde iria. Olhava as ruas tortuosas e barulhentas e tracejava o melhor roteiro. Havia descrença e uma familiar vontade de ir, que se sobressaía ao cansaço. A tarde caía repartindo calendários e projetos. Logo o céu estaria escuro e as vielas ganhariam centelhas de luz e habitantes, em busca de alívio para suas almas. Havia pressa e tempo escorrido. Mas ela sequer se mexia. Aguardava a receita pronta. Ou ainda que algum coração conhecido a arrebatasse dali. Afinal, sempre gostou de andar de mãos dadas.
E continuou ali, imóvel, só os pensamentos a borbulhar. Confabulando a rota a seguir. Desejando a doçura dos reboques. Lamentando a partida. Reconhecendo estar por conta própria. Um balbuciado a fez emergir. À sua frente, a mão esperava. Suja e calejada. As linhas espalmadas refletiam a súplica pelo que faltava e revelava cicatrizes de feridas que volta e meia arrebentavam. Também era sua esta busca. Também trazia aquelas marcas. Mas estava desprovida. De forças, de fé. Sem moedas na carteira. Um aceno de cabeça despediu o mendigo sem o trocado. Ele sorriu desdentado, antes de subir cambaleante a estreita viela, no rito de estender a mão a quem encontrava pelo caminho. O sorriso era a arma usada, rendesse ou não a esmola. Os passos e tropeços eram guiados pela certeza de que algumas vezes ganharia, em outras, não.
Sem fórmulas ou mapas, cuidou de se por naquela direção.
domingo, 29 de agosto de 2010
Mãos
Lembrou-se da primeira vez que saiu sozinha com o pai e a irmã mais velha. Era seu aniversário de dois anos e precisava comprar o presente. Por instantes, a aventura foi trocada pelo desespero de um pai em apuros. Uma freada brusca e um passageiro descuidado renderam uma clavícula fraturada à pequena. O gesso e ataduras enfaixando o tronco e o braço esquerdo formava um côncavo ideal para esconder brigadeiros e confeitos, durante a festa preparada pela mãe. Embora o susto, a única lembrança era a da mão firme do pai sempre - à altura dos olhos - estendida em cuidados. Ao longo da andança à procura do brinquedo, a imagem era de paz. E até hoje trazia a sensação. Já havia tanto tempo. Agora, sozinha, desejou que o encanto dos bichos de pelúcia retirasse mais uma vez a concentração da dor. E que os braços abertos estivessem sempre ali.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Milágrimas (Alice Ruiz e Itamar Assumpção)
Em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
*Texto roubado descaradamente do blog Pão e Circo (Michelle Ferret)
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
*Texto roubado descaradamente do blog Pão e Circo (Michelle Ferret)
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Preguiça
Permanecia parada, estática, dura como em brincadeira de ‘Mandrake’, somente os olhos a observar. Isso quando estes viam. Nem sempre era possível colocar tudo no mesmo campo de visão, devido à monstra preguiça de erguer a cabeça ou virar o pescoço. Estava acomodada no seu mundinho e apesar das mudanças ocorridas nos últimos meses, ainda não se permitia a passos por novos caminhos (nem olhares). Já era hora. Já havia vontade. Mas a preguiça... ô pecado sem proveito!
- Andemos, que isto tudo me entedia.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Não precisou!

Hoje é dia de gente especial. E durante os dias que antecederam tal data, eu me torturei com a possibilidade de precisar dizer 'não'. Sem saber como o faria. Mesmo porque a dúvida pairava no querer. Embora pareça, não é apenas uma palavra curta de três letrinhas. Mas um desencadeador de consequências de proporções desconhecidas. E para mim, em quaisquer situações, nunca foi tarefa fácil. Muito mais que isso. Uma briga entre a razão e o sentimento. E eu precisava decidir quem ganharia. A escolha era minha.
Já passava do previsto, quando quebrei o silêncio. A voz do outro lado da linha me causava uma conhecida sensação de paz e euforia. Os olhos deste lado, se molharam ao visualizar mentalmente o menino. Eu o percebia esperançoso, cheio de azul, enquanto desejava o mais sincero voto do meu coração. Risos e palavras de carinho cresciam na mesma velocidade em que a ansiedade pelo convite, pela escolha sofrida ou se eu agiria com a emoção...
Aproveitei o barulho para me despedir e desligar e, assim, pôr fim a possibilidade de precisar dizer o que eu não queria (Talvez não conseguisse).
Não sei se foi o mais certo a fazer.
Também não procuro respostas.
Não precisou! Pronto.
Agora é esperar que se cumpra o desejo do meu coração:
FELIZ VIDA, QUERIDO!!
(para mim e pra você)
sábado, 3 de julho de 2010
Feliz

Hoje o dia amanheceu mais sereno, apesar da chuva lá fora. O sorriso me acompanhou a cada instante e não houve atropelos, sequer a derrota do Brasil para a Holanda (2 x 1) e a consequente eliminação da Copa das "jabulanis" e "vuvuzelas" capaz de tirar o brilho do sol interno, que irradiava a cada lembrança.
Estava em paz.
Há momentos e pessoas, que apesar de tudo, ainda nos proporciona esta luz.
Estou feliz agora, hoje, este dia! Depois eu paro para pensar como vai ser.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Basta Amar! *

E aquela menininha de cinco anos, que há pouco estivera sentada em frente à tumba - na qual em doce sono descansa seu pai - agora levanta mulher. Forjada pelo fogo da dor do desamparo e pela experiência de amor que sobrevive além-morte, buscava apenas viver.
Quando levantou a cabeça, enxergou um dia novo. Cheio de novas luzes, cores, cheiros e sabores. Não soube dizer com a precisão de um palhaço - estes seres que muito sabem da vida – se este dia era mais ou menos belo e gostoso dos que, em outra tarde, experimentara ao lado do velho pai. Homem sábio, simples, de palavras fortes e sorriso fácil. Era apenas um novo dia.
Um dia que trazia as mesmas sementes que fazem germinar e crescer a vida. Também as dores das podas necessárias para que floresçam em beleza, colham frutos doces e tenros, depois adormeçam e cedam lugar para um outro plantio.
Talvez, o novo ali era a forma como a mulher aos cinco anos enxergava o dia. “Em tudo Deus põe um propósito. Sê feliz, filha”, ouviu o pai dizer.
Um flerte rápido com esta vida de olhar sedutor decodificara as dificuldades e os paradoxos pavorosos, em simples crônicas de leitura diária ou em notícias de algum matutino. Destes que circulam entre tantos desconhecidos, conhecedores de semelhantes infortúnios e dissabores. E forçava a dor única da menina-mulher a moldar-se ao tamanho que tem: nem maior, nem menor do que outras tantas estampadas na primeira página.
Assim, seguem os dias.
Algumas horas, ela finge ser mulher para agüentar a vida. E com uma canção de ninar põe para dormir os anseios e medos que a figura da morte - não mais aquela imagem esquálida, sombria, de túnica preta e cajado na mão - impunha. Agora, a percebia como um anjo, de asas translúcidas, que com ternura ceifa vidas entre campos de alegrias e sofrimentos. E recolhe almas num cântaro de preces a Deus. (a dele deve está num vaso lindo).
Outras, como uma menina de apenas cinco anos, não entende a morte. E lamenta, chora, levanta e vai ver televisão - à tarde sempre passam desenhos e filmes bobos, que se satisfazem em alimentar o imaginário humano com fáceis conclusões. Percebe no passado os pilares que a levaram até ali. Planeja o futuro. E, no presente, repete em silêncio uma oração de amor: “Obrigada”.
E de repente, a menina que sentara para chorar, ergue-se mulher. Arruma o vestido. Seca as lágrimas. Abre um grato sorriso e deposita a mais linda rosa, que jamais ofereceu em vida, no vaso junto à cova do pai. E o vê sorrindo, “Sê feliz, filha”. Antes de sair, um passarinho com seu enorme e rubro nariz de palhaço pousa no ombro e cochicha baixinho, para que as marmoreáveis lápides e seus epitáfios não se sintam menosprezadas: Basta amar!
E entende que não foi a morte, nem é a vida, mas o amor. Este laço em nó-de-marinheiro que une sem ferir e sem desatar em circunstância alguma, pais e filhos, casais, amigos. E dá a luz, a cor, o cheiro e o sabor para olhar e entender o novo mundo, que a cada dia floresce perante aos nossos olhos.
(* Texto escrito em Dezembro/2007 e publicado neste blog em setembro de 2008)
terça-feira, 8 de junho de 2010
...
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Deus sempre fala ao nosso coração

Era um segunda-feira maçante, mas a inquietude daquela alma me trouxe ensinamentos.
Minha mãe certa vez me disse: “Deus sempre fala ao nosso coração, mas a gente insiste que Ele escreva um letreiro”. Lembrei disso enquanto olhava a menina de sorriso cor-de-rosa, que naquele tarde não trazia a alegria no canto da boca. A busca era por (confirmar) respostas.
Talvez por ser dada às interrogações inerentes ao exercício diário da profissão, aprendeu a acreditar nas perguntas e a comprovar fatos. Ensinaram-na assim. Não sabia ouvir Deus. Tampouco aceitar o que Ele diria.
De fato, a solução já estava lá há tanto tempo.
Mas, se fez surda por não querê-la. Desejava tanto que fosse outra que, de tanto pedir, foi atendida mais uma vez. E, para que não restassem dúvidas, a resposta mil vezes sussurrada em oração foi agora cravada com letras asfixiantes. Diante da clareza, refletida pelo neon, a dor cultivada na teimosia parecia romper os sonhos e reservar a solidão. Engano.
No sofrimento, não podia assimilar a libertação. Pela primeira vez, depois de muito tempo, dava um passo para felicidade. Uma felicidade até então nunca imaginada. Com outros castelos e príncipes. Começava ali a viver um outro plano, onde a menina protagonizava o roteiro escrito pelo Amor Maior.
Dúvidas sanadas?! Permita-se enxergar além do letreiro. Ele sempre aponta a direção.
ELA

Tem certas coisas que nos devolve a nós. Estar em casa é uma. Não há nada novo, os móveis estão dispostos na mesma ordem que ontem. A cadeira, com o encosto quebrado há semanas. A parede descascada lembra que a mão de tinta não veio com o ano que passou, mas ainda assim a cor é alegre e aconchegante. É interessante me achar em temperos, travesseiros, pelúcias e até no vento que passa rápido pela varanda, mas sempre vem nos visitar.
Algumas pessoas também têm este poder.
Com ela é sempre assim.
O olhar profundo e a palavra firme fazem brotar a doçura. E se o sorriso é quem se abre primeiro, a paz reina sem pressa de ir embora. As mãos finas e delicadas, sem esconder as rugas e a dureza dos dias, são o melhor afago para arrancar o riso ou secar a lágrima. O cheiro entranhado nelas é bom, mesmo quando cortam cebolas. O colo. Ah! Este merecia um parágrafo único, por ímpar que é. Mas é seu amor generoso que mais me encanta e constrói. Nunca soube ao certo quem é o seu preferido. E como é bom saber-se igual!
Ela não é a minha melhor amiga, daquelas a quem se contam os segredos, desassossegos e desejos mais descabidos. Contudo, sem que eu abra a boca, ela já os sabe só em me olhar. É a minha conselheira favorita, que tem a palavra certa na hora certa. Ela às vezes não entende, mas sempre me mostra e faz buscar sabedoria, só Deus sabe de onde (ela deve saber também). Foi dela que eu senti saudade no primeiro dia na escola e no primeiro carnaval nas ladeiras de Olinda. É dela que vem a coragem para acreditar que tudo vai melhorar, cedo ou tarde. E que nem por isso devemos nos conformar e só esperar. É quem me lembra que preciso rezar mais, economizar mais, aprender mais e continuar lutando.
Embora a profissão e a paixão não a deixem largar a escola, mesmo aposentada, foi com outra que aprendi o bê-a-bá. Mas foi em outros bancos e salas, que ela me ensinou a colorir o mundo, somar alegrias, partilhar o pouco, entender que o outro é igual a mim, apesar de tudo, e que cabe a mim, me melhorar pra vê-lo mais bonito. E ter força para levantar após uma, duas, três rasteiras ou de uma noite inteirinha de chuva no travesseiro, se confiar nEle.
Apesar do nome de santa, ela não o é, graças a Deus. Mas traz em si o poder de dar a vida e na sua finita humanidade, me incita a buscar o céu. Foi ela quem me disse que eu tenho um anjo da guarda, que sempre vela por mim. Só não falou que este anjo também faz o prato favorito, cuida do machucado e até hoje sente prazer em gastar as suadas economias comigo, e não com si. Isso por ser uma das rosas que a santa xará,vigilante na cabeceira da cama, carrega no colo.
E eu a amo porque ela me traz de volta. Embala o sono e faz perceber a beleza do simples. Porque ela é assim. Com ela é sempre assim! O dia fica mais ameno, não importa o tempo lá fora. E eu sempre enxergo melhor a vida, os outros e a mim nos seus olhos. Isso porque venho dela e muito do que sou, é ela.
(À minha mãe, dona Terezinha. Texto postado aqui, em 9/09/2009)
Assinar:
Postagens (Atom)








