
Há coisas, muitas, que simplesmente sinto. Às vezes olho, olho, paro, observo, depois pego e balanço, ponho de cabeça para baixo, mas nenhuma resposta se mexe. Estão lá, eu sei. Imóveis, todas a rirem da minha ignorância. É nesses dias que me vejo da estatura que sou, bem longe do meu 1,68 m. Nos dias em que os tons mais escuros se derramam e alteram a ordem na palheta de cores, de modo a tornar quase impossível enxergar de olhos fechados. E o cansaço já não é suficiente para fazer o coração sonhar. Ontem foi um desses dias.
Ontem a tristeza me tirou para dançar. Em hora indevida e música desafinada, ela insistiu em fazer comigo par. Não sei por que cargas d’água escolheu a mim. Tantos sentados naquele banco vendo a vida passar, estender a mão e parar justo quem corria contra o tempo. Vá entender por que aceitei. Mas naquela solidão, recostei-me no seu ombro, enquanto os olhos acompanhavam o movimento pendular daquela vida. Um pra lá, um pra cá. Dois pra lá, dois pra cá.
Fora do tom, meu coração parecia ainda menor que eu. Apertado, confuso, sufocado. Ora pela distância, ora pela presença, ou pelo saldo negativo. Por descobrir que alguém pode me odiar, mesmo sem justificativas. Assim, a troco de nada e declaradamente. Por saber que, mesmo sem intenção, posso machucar quem amo. Por que nem sempre as escolhas são acertadas. Tampouco a realidade igual ao planejado. Tais quais os passos trocados, entre erros e acertos.
Entregue aquela valsa - sim, porque, apesar de maçante, a tristeza é companhia delicada – aprendi que os pés nem sempre seguem o ritmo tocado e tudo meio que desanda. É nesses dias que gritar bem alto, mandar parar a música e o relógio, parece ser a única forma de fazer as respostas acordar em grande estardalhaço. Mas ali, naquele salão vazio, apenas um silêncio ensurdecedor se fazia ecoar, enquanto ela novamente me estendia a mão, sem importar-se com os tropeços ou pisões.
“- Desculpa, estou aprendendo a dançar”.
