terça-feira, 31 de agosto de 2010

E começar tudo de novo.




Quero a graça do encontro. Desvendar o inusitado. Permitir que outros caminhos sejam trilhados. Há outros mundos, além deste recanto. Despir-me dos antigos projetos e vestir sonhos novos. Em outras cores. Talvez verde. Ou já maduros. Sim. Porque há outras possibilidades. Não sei onde. Mas tem. Conhecer palavras ainda não ditas. Sentir o desdobrar da primeira intenção. Da segunda. O último pensamento do dia. O sorriso reservado na mesinha de cabeceira. A imaginação de ser identificada em alguma página de livro. Seja este o drama que perpassa todo romance, ou a nudez que atiça. Fotografar esperanças e catalogar momentos. Desejo a surpresa da mensagem em meio à reunião de pauta. A ligação que desperta no meio da noite. A gargalhada. O propósito faceiro no canto da boca. Até a lágrima. Sim. Porque ciclos abrem e se fecham sempre. Vai passar! E, outra vez, me deparar com a irremediável sensação de não poder consertar. Elevar-me pelo perdão. Ter satisfação de aceitar. A partilha das mãos, dos dedos, dos lábios e seus sussurros. Busco o grito que não fala. Desperta. A resposta dos olhos. O silêncio que perturba. Revirar na cama com a lembrança. Perder o sono em expectativas. Dormir aconchegada. Conservar a paz no trânsito engarrafado. Cantar a nossa canção (sim, porque quando você aparecer, teremos uma) sem pressa. Quem sabe seja Chico. Devagar. Cadenciado. Ouvir o coração se rasgar. Costurar almas. Ponto a ponto. Casa a casa. Alinhavar corpos. Atar em nó e desfazer. Pétala a pétala. Bem-me-quer! Receber a alegria das rosas e seus espinhos. Flutuar igual borboleta no estômago. Deixar ser arrebatada para uma estrela. Plainar cadente. Pisar o chão descalça e perceber as pedras. Sim. Porque há de ser real. Como o arrepio na nuca. Ser tocada de leve. Ganhar preocupações. Trocar codinomes. Provar outros sabores. Marcar os sentidos. Aguçar o nariz e sentir o gosto do vento contra o rosto e os cabelos. Se soltar. E respirar. Aliviar o coração das mágoas. Derramar outras histórias. Se esvaziar e encher tudo. Dançar ritmos até então não imaginados. Encantar. Aquecer. Gelar. E rir. E rir mais uma vez. Sim. Porque há outras verdades. Será possível atracar seguro. Crescer nas tormentas. E proporcionar calmaria. Poder se debruçar em nascentes metas. Erguer um lar. Conquistar o quintal e desbravar as linhas do teu rosto. Dar vida. Acordar com a fé de que valeu e vale à pena. E não ter medo de envelhecer ao seu lado. Sim. Porque a vida é grande demais para se propor a pouco. Porque eu recebi a promessa. Certifiquei o vindouro. Endossei o coração. E confio. Não sei de onde. Mas vem! Então, que se aproxime manso, até falho, mas não tarde. E anoiteça com luzes coloridas, enquanto retoco a maquiagem e o calor me pinta. Em uma, duas, três, quantas telas caibam nessa criação. Quero a magia do novo de novo. E seu velho recomeço. Sim. Porque o amor há de chegar. E renovar. Reinventar. E começar tudo de novo. Quero a graça do encontro. Desvendar o inusitado. Permitir que outros caminhos sejam trilhados...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Standby [me]


“Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei. Pra você correr macio."

Rumos


Esteve sentada todo este tempo, sem saber para onde iria. Olhava as ruas tortuosas e barulhentas e tracejava o melhor roteiro. Havia descrença e uma familiar vontade de ir, que se sobressaía ao cansaço. A tarde caía repartindo calendários e projetos. Logo o céu estaria escuro e as vielas ganhariam centelhas de luz e habitantes, em busca de alívio para suas almas. Havia pressa e tempo escorrido. Mas ela sequer se mexia. Aguardava a receita pronta. Ou ainda que algum coração conhecido a arrebatasse dali. Afinal, sempre gostou de andar de mãos dadas.

E continuou ali, imóvel, só os pensamentos a borbulhar. Confabulando a rota a seguir. Desejando a doçura dos reboques. Lamentando a partida. Reconhecendo estar por conta própria. Um balbuciado a fez emergir. À sua frente, a mão esperava. Suja e calejada. As linhas espalmadas refletiam a súplica pelo que faltava e revelava cicatrizes de feridas que volta e meia arrebentavam. Também era sua esta busca. Também trazia aquelas marcas. Mas estava desprovida. De forças, de fé. Sem moedas na carteira. Um aceno de cabeça despediu o mendigo sem o trocado. Ele sorriu desdentado, antes de subir cambaleante a estreita viela, no rito de estender a mão a quem encontrava pelo caminho. O sorriso era a arma usada, rendesse ou não a esmola. Os passos e tropeços eram guiados pela certeza de que algumas vezes ganharia, em outras, não.

Sem fórmulas ou mapas, cuidou de se por naquela direção.

domingo, 29 de agosto de 2010

Mãos


Lembrou-se da primeira vez que saiu sozinha com o pai e a irmã mais velha. Era seu aniversário de dois anos e precisava comprar o presente. Por instantes, a aventura foi trocada pelo desespero de um pai em apuros. Uma freada brusca e um passageiro descuidado renderam uma clavícula fraturada à pequena. O gesso e ataduras enfaixando o tronco e o braço esquerdo formava um côncavo ideal para esconder brigadeiros e confeitos, durante a festa preparada pela mãe. Embora o susto, a única lembrança era a da mão firme do pai sempre - à altura dos olhos - estendida em cuidados. Ao longo da andança à procura do brinquedo, a imagem era de paz. E até hoje trazia a sensação. Já havia tanto tempo. Agora, sozinha, desejou que o encanto dos bichos de pelúcia retirasse mais uma vez a concentração da dor. E que os braços abertos estivessem sempre ali.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Milágrimas (Alice Ruiz e Itamar Assumpção)

Em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre

caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre

*Texto roubado descaradamente do blog Pão e Circo (Michelle Ferret)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Preguiça


Permanecia parada, estática, dura como em brincadeira de ‘Mandrake’, somente os olhos a observar. Isso quando estes viam. Nem sempre era possível colocar tudo no mesmo campo de visão, devido à monstra preguiça de erguer a cabeça ou virar o pescoço. Estava acomodada no seu mundinho e apesar das mudanças ocorridas nos últimos meses, ainda não se permitia a passos por novos caminhos (nem olhares). Já era hora. Já havia vontade. Mas a preguiça... ô pecado sem proveito!
- Andemos, que isto tudo me entedia.