sábado, 29 de junho de 2013

Saudade


Há exatos seis anos, São Pedro abria as portas do céu (no dia dele) para receber mais um anjo. "Chegue, Raimundo, estávamos só esperando você pra começar. O Senhor já está ali, ansioso, para te ver", disse empurrando com uma pressa animada aquele portão. E eu imagino ele entrando, num passo lento, com aquele riso fácil no canto da boca, sem fazer cerimônias para abraçar a todos e, logo em seguida, pedir ao sanfoneiro para começar logo a tocar: “Tocaí o rei do baião, menino, que hoje é dia de vida nova”. 

E essa chegada tinha que ser em dia de festa e festa das boas, como manda a tradição nordestina, com todas as bandeiras, fogueiras, fogos e banquete típico em homenagem ao pescador São Pedro. 

Naquele dia, mesmo com tanta dor, achei graça a coincidência da data. Dia do apóstolo de quem a simplicidade e a graça de Deus me faziam (e fazem) lembrar meu pai. Não houve na cidade quem não fizesse a mesma menção: no dia de Pedro. Porque ele também era nosso alicerce. 

E, hoje, quando a saudade ainda se faz maior e mais pesada, eu rezo para que esse meu anjo-protetor lindo continue a se alegrar nessa vida nova de festas. São Pedro, cuida para que a música, a comida e as brincadeiras estejam todas do agrado dele, porque a companhia, sem dúvidas, eu sei que é. Amém.

domingo, 23 de junho de 2013

Sem saber escrever



Ela só queria escrever uma história. De preferência, que tivesse um casal. E quem sabe alguns planos e sonhos para somar ou jogar fora, enquanto se constrói a vida. Que fosse um conto envolvente ou um romance, com a urgência e a paz dos abraços, dos braços jogados, esquecidos um sobre o corpo do outro. Uma história que tivesse dois tempos e demorasse ou nunca chegasse ao fim. Que fosse se renovando a cada novo parágrafo, a cada revisada, a cada frase riscada, consertada ou até mesmo naquelas que não há mais o que dizer. Escrita com letras redondas ou hieróglifos ilegíveis, de acordo com a pressa para captar cada momento, cada movimento, cada pedacinho de si, dos dois. Sem perder nada. Escrita a quatro mãos e um caminho. Que falasse também em verdades, em anseios e trouxesse um ou outro erro - já que nada pode ser perfeito. E fosse simples, como essa vontade doida de rir. Porque o amor pode ser fácil. E ela só queria escrever. Mas já era domingo. E nessas noites fogem as narrativas.