quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sorriso amarelo


Não sei bem o que aconteceu.
De repente, amarelou. Como no sinal que corre solto e estanca no amarelo.
Assim, de última hora, no fechar da porta, no tchau.
Quando ia ser, não foi.
Poderia ser de qualquer cor, mas justo a minha favorita?

O amarelo sempre me lembrou o sol, a luz, a alegria.
Desde pequena me vesti da cor da vida.
Nas telas em que pintava o mundo, a matiz e seus tons sempre foram predominantes.
Devolvia-me o sorriso nos dias mais cinzas, nos avermelhados ou mesmo naquele em que a as gauches, os pastéis e os óleos se misturam em composição indefinida!

O sorriso.
Sempre o vi como uma porta aberta, convidando a entrar. Os olhinhos brilhando, num tom mel, emanavam uma luz que me invadia e me fazia ressurgir menina de todas as idades.

No dia em que me chamou pra provar o líquido preto e gelado, eu me vesti de rosa. Rosa como debutantes que festejam o amor, sem se importar com a ordem, se o primeiro, o segundo, o terceiro, só em festejar. E passei a noite acordada imaginando situações e sonhando de olhos abertos. Como menina de 15 anos não me continha em expectativas até a hora marcada.

No meu livro, sentada no chão com os pés tocando as nuvens, desenhei arco-íris, rabisquei bocas, corações e beijos e derramei todas as tintas enquanto o relógio corria e me dava a sensação de gelinho na barriga.

Eu estava viva, tão viva quanto o tom mais fluorescente da minha cor. Seja ouro, gema, canário, limão. O mais bonito.

Então que, na hora do vernissage, a cor mudou, ganhou a sua pior derivação.
Destoando do cenário, da tela, da moldura, de tudo ali. Mudou.

Não entendi.
Talvez tenha sido os pincéis, cansados dos meus devaneios, que resolveram me pregar uma peça. Sentiram-se traídos e armaram uma conspiração por eu ter escolhido o pink naquele tarde? Vá saber.

O que sei é que amarelou.
Poderiam no auge do ciúmes terem jogado solvente, mas...
Naquele dia, justo naquele dia, o sorriso foi amarelo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dia de chuva


Hoje acordei de sobressalto. O quarto estava escuro e pouca luz conseguia entrar pela janela. Um estrondo assustador me devolveu a estatura dos seis anos e chamei, repetidamente, pela minha mãe. Até que ela, entrando no meu quarto, carinhosa e apreensiva, aliviou meu coração: “são trovões, filha!”. Fortes trovões, que me tiraram do mundo dos sonhos.

Depois do susto, me levantei e fui ver a chuva. Um pé d’água que afetou, inclusive, o abastecimento de energia da minha cidade. Um temporal. Mas como assim? Hoje é dia 16 de janeiro. Janeiro! Ou seja, pleno Verão!

Mas o barulho que agora ressoava e apertava meu coração vinha de outros ares, que me questionavam a mudança de calor para o frio e queria saber se ainda dava tempo.

Do quarto, eu olhava o dia da minha cor. Há situações que nos levam a aquarela. E eu acordara tão cinza, quanto as nuvens que se desfaziam frente a minha janela.

Não entendo. É verão e a minha vida já estava ganhando as cores fortes e claras da estação. - Mas o que mudou?, mais uma vez bradou o trovão. E eu não tinha todas as respostas e não sabia crer nas que ouvia quando devolvi a pergunta.

Será uma dessas zonas de convergências, que o arrogante Bistrot explicaria com maestria em mais uma entrevista? Não sei. Não sei se o tempo ou o clima, como dividiria em sua correção o veterano meteorologista.

Dentro de mim, lágrimas caíam como a chuva chorosa que perdurou toda a manhã, a tarde e talvez adentre a noite. Uma chuva que lavava e fazia reaparecer flores, encobertas pela poeira e folhas secas. Flores que não perderam o encanto de sua história, apesar do forte calor deste sol nordestino ou californiano. Mas que já não tem a mesma vida. E os espinhos, quem me garante que caíram?!

Meu pai dizia que eu encontraria respostas na tristeza, porque é nela que paira a reflexão. Os dias de chuva são mais tristes, mas eu sempre gostei deste friozinho, do cheiro de terra molhada, do convite à ficar na cama, à brincadeiras para aquecer os pés e aos pensamentos.

- Ainda há tempo? O que mudou? E o que muda com isso? – ecoa em mim ainda.

Passei tanto tempo na chuva. Seis meses. Molhada. Com frio. Sozinha. Apenas dois pés sob os lençóis, apesar da busca insistente para reencontrar os teus. Meu rosto banhado tinha o gosto salgado e a tristeza nada tem com as precipitações da água.

E a chuva continua caindo lá fora. Vou deitar. Ler um livro. Esperar que estas doces lembranças se escoem e se resguardem em um reservatório de luz. Foram momentos mágicos.

Mas é verão.
Apesar do barulho do trovão anunciando as águas após o clarão, é verão! Da minha janela, vou esperar o sol. Afinal, nada mudou. A estação é a mesma. Eu também. E você? Você mudou?

Vou esperar o sol. Quem sabe ele não me aparece em forma de um sorriso. Um largo e lindo sorriso!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mais um cafézinho??


O bule. O fogão à lenha. O cheiro de café convidando a conversar. As tardes eram mais amenas e os risos mais fáceis. Da cozinha, se ouvia vozes alternando numa melodia de alegria e confissão. As mãos que há pouco secavam lágrimas, agora côa o líquido preto e serve a xícara quente. A vida na simplicidade, buscando somente ser o que é. Sem pretensões. Sem muitos planos ou quereres. O momento. Um gole de cada vez.

A correria e o cansaço do dia-a-dia embaçam a beleza de ouvir os olhos, tal qual o vapor fumegando da xícara turva as lentes. Às vezes, tempo e sonhos são investidos em coisas que não convém. Que travam na boca e deixam apenas um gosto ruim. Enquanto o que faz bem é simples, sempre esteve lá, de graça, como naquelas tardes em que o aroma aquecia a casa e o coração. Tão perto, a um movimento da mão. Basta apenas reconhecer e priorizar o que realmente importa. Dar a dose necessária para o dulçor.

E outras vezes, adequar o paladar, perder o medo de se queimar e saber que mesmo doendo, depois passa. Cada coisa por sua vez, sem a pressa de fazer da vida um compilado de pessoas, coisas e planos que nos levam de nós. Apenas viver. Saboreando o gosto forte do amargor que adoça a boca. O bule todos os dias está no mesmo lugar.

– Puxe uma cadeira, sirva-se!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

UM BRINDE A LIBERDADE!

Estive acordada o suficiente para sonhar quando ele chegou. E chegou fazendo barulho, trazendo a alegria das mãos se tocando, dos abraços quentes e dos sussurros de paz que enchem o coração e molham os olhos docemente. Clareando o céu, o mar e os sonhos com luzes multicoloridas, ele chegou!

Foi esperado até o último instante e no primeiro já estava lá.
Chegou acendendo desejos adormecidos e um sentimento de libertação. É isso mesmo: LI-BER-TA-ÇÃO! Enquanto eu beijava os queridos ao meu redor e aquele que só meu coração podia enxergar, também visto nas lágrimas de saudade da minha mãe, eu desejei para 2009 ser livre! Não livre como sugere o Aurélio e suas páginas deitadas na estante.

Mas livre feito aquele beija-flor furtacor, que, de vez em quando, pousa na minha janela para beijar os malvões e as pipocas roxas. E, voando e revoando, vem me causar inveja desta capacidade de amar um jardim inteiro, sem julgar ou se importar com a cor das pétalas, se algumas já caíram ou só agora se abrem, preocupando-se apenas com sua missão de renovar a vida.

Livre como aquela criança de olhos vivos que inocente dormia na rede da varanda, sem deixar que o estourar das champanhes, sorrisos, espumantes e afins perturbasse, quando o relógio marcou zero hora, sua imersão em mundo mais bonito, onde não se vê calendário.

Livre como um apenado que há tempos ansiava o abrir dos portões, apesar dos cadeados frouxos. Aliás, portões abertos. Posto o cadeado apenas como faz-de-conta só para garantir que eu não saísse e as visitas não cessassem. Ahhh! Mas é que a cela era linda, linda, linda. Quente. Rica. Com aquele perfume amadeirado que faz perder a cabeça e depois sossegar e reinventar mundos. E eu há muito havia enfeitado-a com meus melhores sonhos. Pus as nossas realidades em molduras de flores e espinhos retorcidos, que me sorriam e machucavam o coração, cada vez que as olhava. Por anos e anos foi meu cantinho, o porto seguro, o segundo endereço. Pra quê sair dali? Tão cômodo, conheço cada tijolo que misturado a argamassa se fazia identidade. Talvez seja lá que deixei a minha, ou parte dela.

E o mundo além portas abertas também podia, pode, machucar. Juro que ainda tenho medo! Mas resolvi sair. Sozinha. Um pé de cada vez, sob um olhar de menina, que pouco sabe dos segredos da vida.

Não, não quero o cativeiro de um amor que me roube o que sou, que me leve de mim, sem a gentileza de perguntar se pode, para ouvir um não firme e mal-humorado. Um amor que não me permita sonhar os meus sonhos, aqueles que trago desde a primeira infância ou os que me acompanham desde a noite passada. Não posso e nem quero mudar o que sou. E não vou! Também não quero sonhar sozinha. Tampouco e ainda mais, não quero acordar sozinha.

Epa! Calma! Não estou aqui decretando a minha solteirice vitalícia nem pulando numa vida de libertinagens deliciosas. Quem me conhece sabe que sou careta o suficiente para resistir a estas entregas desprovidas de sentimento. Sabe também que sou romântica e a paixão é o que me move. Adoro está apaixonada! Por tudo! Sou apaixonada por minha família, amigos, por chocolate, borboleta, beija-flor, cor, poesia, prosa, música, sorvete, sorrisos, chuva, praia e noite ensolaradas.

Apaixonada por gente! Nossa como gosto de gente (de cachorro também)! A invenção perfeita de Deus, embora cheia de defeitos - o ser humano, não os cães! Gente de atitude, de meias-palavras e palavras e meia. E as palavras, esta é outra paixão que me leva a aventura diária de ser repórter nesta pequena cidade. De embarcar em mundos diferentes a cada leitura de livro, de uma imagem bonita, de um olhar pidão.

Sendo assim seria impossível pensar em ser livre do amor. Não. Eu o quero em 2009 também!
QUERO O AMOR.
O AMOR E SUAS SOMAS.
Depois de aprender que o importante não é só o abrir do portão, quero mais é a libertação do fechar a porta atrás de mim, esta que há muito permaneceu entreaberta. E poder mergulhar neste dia lindo, novo, cheio de luzes, cores e expectativas, que acaba de amanhecer.

FELIZ 2009!!