quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pela primeira vez, depois de muito tempo, ouvi a música e ela não me machucou.
Achei estranho.
Repeti pausadamente cada verso, estrofe a estrofe, para ver se ainda existia. Mas não estava lá.
A letra pareceu tão lindamente mais leve.
Estranhamente, senti a falta da dor.
Do amor.
Parou.
O mp4 repetiu o último refrão.

Por onde passará o amor se a ponte quebrar?
Será que vai por água abaixo ou aprende a voar?

sábado, 25 de setembro de 2010

Papéis não guardam perfume


Ela respirou fundo, contou até três e abriu a porta. Acostumada à trava, a guardiã da passagem reagiu rangendo as toras de madeira. Ali, era local sagrado, havia de se fazer alguma resistência, antes de deixar qualquer desavisado se aboletar sem cerimônias.

Há tempos e por muito, foi habitado por morador um tanto desleixado. Destes que constroem jardim, mas se enfadam com as primaveras e deixam secar as roseiras e os malvões. Ou se contentam em recordar fotografias, como se das imagens amareladas pudessem fazer brotar novos botões. Contudo, papéis não guardam perfume. E aquele vermelho risonho, merecedor de corações e cabelos, desbotou. Uma pena! As cores deveriam reacender a cada nova estação. Mas não resistiram ao rigor do inverno. Não havia mais flores. Nem inquilino. Sequer espetavam os espinhos.

Mesmo desabitada, permaneceu trancada. Sem luz, morno, abafado. Até que desejou respirar. Jurou que seria no três e empurrou. Era tempo de deixar o ar, novamente, atravessar a soleira e renovar cada espaço. Carecia afastar a penumbra, espanar a poeira, trocar os sorrisos do porta-retrato e colocar alegria nos acordes daquela vida. Apressou-se em baixar um play list seleto em velocidade recorde, graças a mais recente versão do aplicativo em mp3. Haveria de ter a malemolência da bossa, a vibração da guitarra do jazz e alguma malícia e roquidão inerentes ao samba - como todo bom brasileiro.

E poesia! Cuidou em rever as estantes e prateleiras e guardar palavras para que não as faltassem quando estivesse ali. E dobrar segredos em pequenos pedaços de seda arrematados com sonhos a serem descobertos com o novo. Resolveu mudar a cor. Ao invés do azul cansado, caiou as paredes em lampejos de sol. E em cada canto borrifou cheiro de chuva fina. Rabiscos de crianças enfeitariam os cômodos e em tramas de nós deitariam desejos. A louça reproduzia a delicadeza das margaridas. Lembrou de comprar chocolates e jornal para o café. Treinou sorrisos faceiros e gargalhadas. Tudo deveria estar pronto  (mesmo que ela não se soubesse também). Deixou o molho de chaves sobre a mesa e uma advertência de boas-vindas!

Suspirou receosa, mas fazia minutos que contara até três. Olhou o santuário vazio e sentiu que estava pra chegar. À entrada, pendurado por dobradiças de cobre, o portal de madeira parecia não ter certeza de se deixar como está. Aberto. Tal condição era algo quase esquecido e um tanto assustador - Não só para a porta!

Cartas - Clarice Lispector e Fernando Sabino


Washington, 25 setembro 1954, sábado.


Fernando,

estou com a impressão meio inventada de que você ficou zangado quando eu disse pelo telefone que não queria que você fosse ao aeroporto. Você ficou de telefonar à 1:30, e não telefonou. Fiquei amolada com a minha falta de cortesia, respondendo à sua gentileza com uma sinceridade ou franqueza que ninguém usa. Você gentilmente mostrou intenção declarada ou vaga de ir ao aeroporto, e eu, que tanto faço questão de não usar a alma na vida diária, pois é até de mau gosto, disse que não. Eu já lhe expliquei o motivo da minha rudeza -o que não a justifica- e explicarei de novo.
Para mim, sair do Brasil é uma coisa séria e, por mais 'fina' que eu queira ser, na hora de ir embora choro mesmo. E não gosto que me vejam assim, embora se trate de lágrima bem-comportada, de lágrima de artista de segundo plano, sem permissão do diretor para arrumar os cabelos... Não é por vaidade de rosto que não gosto que me vejam de olhos vermelhos, é por uma vaidade que, por ser menos frívola, é muito mais pecado: é por orgulho ou altivez ou seja lá o que for -enfim, vaidade mais grave.
Depois, também, eu me encabulo de estar sempre chegando e indo embora, o que obriga os amigos a um movimento em torno de mim, um movimento que às vezes nem cabe direito na vida deles. Então procuro dispensar a gentileza dos amigos, e facilitar a vida diária de cada um que já é bastante cheia e complicada sem uma ida ao aeroporto. Maury diz que eu costumo ter reações pessoais a coisas chamadas 'de praxe'. Parece que é mesmo verdade. Parece que eu seria capaz de pedir sinceramente a alguém que não apanhasse minha luva caída no chão para não amolar esse alguém, sem entender que incômodo é não apanhá-la, que incômodo é não fazer o que é 'de praxe'. (O exemplo da luva é só para exagerar, até que deixo apanharem minhas luvas, senão perderia todas...)
Quanta explicação! E provavelmente você nem ficou zangado com minha descortesia, provavelmente você não telefonou depois porque estava ocupado. É o que espero que tenha acontecido. Esperando também que você não ria das tolas e inúteis complicações de sua amiga.
Clarice



Rio, 19 de outubro de 54.


Clarice,
Suas 'complicações' não são tolas, mas inúteis. É verdade que você não precisa absolutamente se preocupar, não fui ao aeroporto porque você não queria e então acabou-se, e não telefonei porque na hora deve ter acontecido alguma coisa de que já não me lembro, e depois você já não estava. Mas valeu o desencontro porque forçou uma carta tão boa que parecia uma carta de Mário de Andrade e isso é elogio. Respondo agora me forçando um pouco (são 2 horas da manhã, me prometi não passar de hoje) pois quero ver se venço essa minha inércia mental com relação a cartas. Tanto mais que sinto necessidade real de escrever a você e vou deixando passar, talvez porque inconscientemente julgue que nada de importante tenho a lhe dizer, você sempre mereceria mais do que atualmente sou capaz de dizer numa carta. E sei como são importantes as notícias para quem está no estrangeiro.
Infelizmente não tenho nenhuma a dar, senão que tudo vai indo na mesma e se as coisas mudam é porque nada precisamos fazer para que mudem. Nada tenho feito e no entanto várias coisas mudaram. Não me mudei; continuando morando no mesmo lugar, para onde você tem a partir deste momento a obrigação moral de escrever. Preciso do seu estímulo - o de alguém que, não vendo as coisas de perto, tem mais perspectiva. E prometo responder, farto de notícias. Creia-me, esta carta já é uma vitória para quem não sabe mais o que dizer. Só é sincero aquilo que não se diz - e nem isso é meu, li em alguma parte. Como você vê, isso para um escritor é estar no mato sem cachorro. Abrace por mim ao Maury e acredite sempre na amizade do seu
Fernando

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Coleção Primavera/Verão


É incrível como, às vezes, a gente insiste em certas coisas. Não abandona velhos hábitos e tenta transformar quase em ritual. Só pra não desfazer a crença de ser a combinação certa. Como vestir aquela blusa surrada, que embora tenha custado caro e feito muito sucesso, atraído olhares e até sorte, já deu o que tinha de dar. Tanto te acompanhou que mais parece uma segunda-pele. E toda vida que se pensa em sair, abre-se o guarda-roupas e ela está lá. Sorrindo, se esticando do cabide para saltar nos nossos braços com promessas de repetir o mesmo frisson de antes. Engano. Mesmo que linda, não é mais adequada. Não combina com o saltão pink e a luz que trago no sorriso agora. Não tem o mesmo arrojo daquela época. Caiu de moda. E a tendência da nova estação traz a clareza do que se quer, o encantamento em estampa na cara, os babados de fim de semana e de segundas-feiras cinzentas, o ombro amigo bem trabalhado, o romantismo das flores sem ocasião e o toque dos tecidos que alisam as pernas e insinuam-se com o vento. É isto que quero. Cores. Alegria. Leveza. Quero a magia de escolher entre as peças dispostas na arara, aquela de caimento perfeito. O meu número. Deliciar-me com as provas, até encontrar aquele look de rua e de passarelas, com ares de beleza contagiante. E deixar todas com vontade de copiar o modelito de ser feliz. Por que é assim que tem que ser. Nada de tons fechados. Nada do último inverno. Quero o calor dos dias banhando as minhas horas em dourado. O luto acabou. Mesmo porque o preto é a cor que eu menos gosto. Não realça o tom da minha pele, nem dos meus cabelos e sonhos. Quero a cor da vida. Sóbrias. Vibrantes. Todas. Já, já começa um novo desfile. E mais uma vez estará na passarela alma e coração.

domingo, 12 de setembro de 2010


Não aguento mais escrever sobre o mesmo tema. E sentir a mesma coisa. E ter os mesmos anseios e medos. Hoje perguntei à amiga se foi o mais certo a fazer. Ela acha que sim. Vira e mexe me aparecem as dúvidas. E preciso que alguém me lembre o porquê. Por que tudo que consigo guardar é a gente junto. Os momentos bons, que foram muitos. Talvez seja problema de memória. Ontem, naquele quarto de hotel, sozinha, lembrei de tantas outras viagens. “Ainda bem que saudade não mata”. Que bom que isso é verdade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sem graça

De repente, perdeu a graça.
Sei até aonde caiu.
Ficou lá.
Mesmo sem ser esquecida.
Mesmo desenxabida.
A falta faz lembrar onde encontrar.
Todo dia.
Como música que impregna no cérebro.
Repeat on.
Toca sem parar.
Sem graça.
Sem tocar.
Perdida.