terça-feira, 2 de setembro de 2008

Basta amar

E aquela menininha de cinco anos, não mais que cinco anos, que há pouco estivera sentada em frente à tumba na qual, em doce sono, descansa seu pai, agora levanta mulher. Forjada pelo fogo da dor do desamparo e pela experiência de amor que sobrevive além-morte, busca apenas viver.

Quando levantou a cabeça, enxergou um dia novo, cheio de novas luzes, cores, cheiros e sabores. Não soube dizer com a precisão de um palhaço - estes seres que muito sabem da vida – se este, o dia, era mais ou menos belo e gostoso, dos que em outra tarde experimentara ao lado do velho pai. Homem sábio, simples, de palavras fortes e sorriso fácil. Apenas novo.

Aquele dia tinha as mesmas sementes que, todos os dias, fazem germinar e crescer a vida, com as dores das podas necessárias para que floresçam em beleza, colham frutos doces e tenros, depois adormeçam e cedam lugar para um outro plantio. O novo, ali, era a forma como a mulher de cinco anos enxergara o dia. “Em tudo Deus põe um propósito. Sê feliz, filha”, ouviu o pai dizer.

Um flerte rápido com esta vida, de olhar sedutor, decodificara as dificuldades e os paradoxos pavorosos, em simples crônicas de leitura diária ou em notícias de algum matutino. Destes que circulam entre tantos desconhecidos, conhecedores de semelhantes infortúnios e dissabores. E forçara a dor única da menina-mulher a moldar-se ao tamanho que tem: nem maior nem menor do que outras tantas estampadas na primeira página.

Algumas horas, ela finge ser mulher para agüentar a vida. E com uma canção de ninar põe para dormir os anseios e medos que a figura da morte, não mais aquela de outrora, esquálida, sombria, de túnica preta e cajado na mão, impunha. Mas agora a de um translúcido anjo, que com ternura ceifa vidas, entre campos de alegrias e sofrimentos, e recolhe almas num cântaro de preces a Deus.

Outras, como uma menina de não mais que cinco anos, que não entende a morte, lamenta, chora, levanta e vai ver televisão. Às tardes sempre passam desenhos e filmes bobos, que se satisfazem em alimentar o imaginário humano com fáceis conclusões. Percebe no passado os pilares que a levaram até ali, planeja o futuro e, no presente, repete em silêncio uma oração de amor: “Obrigada”.

A menina que sentara para chorar ergue-se mulher. Arruma o vestido. Seca as lágrimas. Abre um grato sorriso e deposita a mais linda rosa, que jamais ofereceu em vida, no vaso junto à cova do pai. E o vê sorrindo, “Sê feliz, filha”. Antes de sair, um passarinho com um enorme rubro nariz de palhaço pousa no ombro e cochicha baixinho, para que as marmoreáveis lápides e seus epitáfios não se sintam menosprezadas: Basta amar!

E entende que não foi a morte, nem é a vida, mas o amor. Este laço em nó-de-marinheiro que une, sem ferir e sem desatar em circunstância alguma, pais e filhos, casais, amigos, e dá a luz, e dar a cor, o cheiro e o sabor para olhar e entender o novo mundo, que a cada dia floresce perante aos nossos olhos.

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