sábado, 18 de abril de 2009

Não sei brincar de gente grande



Ser ‘grande’ não é tarefa fácil. Nunca foi. Mas quando eu era pequena achava que seria. Era fantástico imaginar que aos 20 (idade de velho), todas as coisas estariam resolvidas, eu teria meu possante amarelo, moraria sozinha num alto apartamento, vestiria tailleurs e viajaria ao menos uma vez por mês, porque, claro, eu já seria formada e rica nessa época.


A cada idade mudava a resposta para a célebre pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”. Sonhei em ser professora como a minha mãe; veterinária para salvar as indefesas formigas e borboletas; presidente do Brasil para acabar com a inflação, porque eu não agüentava a mudança de preço a cada dia quando eu ia comprar balinhas na venda de Zé de Godô – um homem tão feio, que eu jurava que tinha sido descartado do papel de Gargamel, porque poderia tirar o sono dos pequenos espectadores dos Smurfs.


Também teve a fase de arquiteta, artista plástica e publicitária, porque eu sempre amei desenhar. E durante as Olimpíadas, ser campeã de vôlei, como a Ana Moser (só que bem mais bonita). Mas a melhor era a fase da “Femme Fatalle”, imaginar que poderia escolher, literalmente a dedo, o meu príncipe em uma looooonga fila de apaixonados; para isso testava a eficiência das táticas, que passavam desde as inocentes interpretações de Cheetara (a única felina dos Thundercats), ao vento no vestido de Marilyn em P&B, até os beijos calientes que arrebatavam o coração de Tom Cruise em Top Gun, Cocktail, A Lenda, Dias de Trovão, Nascido em 4 de julho, A Firma e... não, Rain Man, não, please!


Mas hoje, depois de ter saído ontem a noite pra tentar abstrair mais um dia cão naquela redação - porque no final das contas, depois das mil opções, virei jornalista - com uma amiga querida e outra que acabara de conhecer e me divertir na balada, dançar, encontrar amigos e voltar para casa feliz, eu dormi e acordei sozinha. Pior, eu acordei sozinha e doente. E não era ressaca. Não tinha ninguém em casa. E eu me dei conta que, apesar da jornada de trabalho, do canudo e das várias faturas que terei que quitar até o fim de semana, ainda não aprendi a cuidar de mim nessa situação. Não me lembro de ter visto esta parte no manual de sucesso “de quando eu for grande aos 20 anos”, nem no dos “20 e alguns”...


Depois de passar mal várias vezes, liguei para a minha mãe. Tive ainda que ligar para o meu chefe para avisar que não poderia ir trabalhar. Ainda pensei em ligar para o ex para pedir carona até o médico, porque aos quase 30 eu ainda não tenho meu possante amarelo. Claro que ele daria, mas resolvi não dar o cabimento e acabei não indo ao médico. Minha mãe ligava a cada cinco minutos para saber de mim e indicar alguma solução. As amigas também ligaram e uma até se ofereceu para trazer comida, porque eu ainda estava em jejum às 5 horas da tarde...


A noite estava um pouco melhor, depois de litros e litros de soro e chás. Da janela da casa quase vazia, eu via a meninada correndo e gritando embaixo do pé de pitomba, numa algazarra ensurdecedora, que deixou rouco até o Ed “Seja minha menina, só minha...". E eu me lembrei da tal pergunta e, desta vez, eu teria certeza da resposta: “ - Quando eu crescer, eu não quero ser gente grande!".
Vamos brincar de outra coisa?


(sim, sim, eu to carente!)

5 comentários:

Carlinha disse...

É difícil amiga, ahhhh como é difícil ser gente grande!!! Por esse e por outros vários motivos!!!! Mas a gente supera, mesmo sem o carango amarelo, sem os tailleurs, sem os rios de dinheiro... A gente vai aprendendo a lidar com essas coisas de gente grande! E quando a gente tem amigos, tudo fica menos difícil! E tu tens aos montes, viu?!!
AMO de graça!

Júlia Schiaffarino disse...

Tava procurando um material na net e dei de cara com teu texto. Gostei! Tbm sou jornalista e ainda estou aprendendo a ser gente grande rsrs.
abs (e espero q estejas melhor)

Márcia disse...

Vc me fez relembrar que um dia tbém fui criança e tive meus sonhos, n muito diferentes dos seus. Professora, acho que é comum à todas nós que fizemos o primário, admirando a professorinha sábia, a minha se chamava Neuza. Infelizmente a vida, o mundo, as pessoas vão pintando quadros diferentes do que imaginávamos, n com tanto colorido como gostávamos. A realidade é um quadro de cores apagadas, n pq Deus assim o quis, mas pq nós mesmos perdemos a capacidade de sonhar, e o sonho é uma utopia colorida que sufocamos no vai e vem das informações desencontradas. Mas ainda há uma esperança, se deixarmos nossa criança interior voltar a sorrir e cantar e brincar e ficar assustada ao ouvir estórias de terror contadas pelos avós e andar de pés descalços e brincar de pega pega, n necessariamente nessa ordem. Sejamos felizes amiga, pq a hora é agora, de darmos um basta nesse caos, de recuperarmos nossos valores,de nos reconciliarmo-nos com a natureza e com nosso criador, assim recuperaremos nosso arco iris deixado lá atrás, ajudando-nos assim a projetar um quadro de cores novas e vibrantes.

Kedma Araújo disse...

'Odeio' quando trazem à luz aquilo que minha alma tenta esconder no mais profundo abismo do ser...
E tu conseguiste, visse menina.
O texto foi de abril e só agora consegui ler. Mas parece que foi ontem...
Parabéns pelo desprendimento de contar seus segredos e me fazer lembrar que não sou a única que vive no 'Fantástico Mundo de BOB'.
Bjo e saudades.

Roberto Lucena disse...

Sara Lee, que texto brilhante. Lembrei-me de uma aula daquele professor péssimo que cuspia muito... como era o nome? Bolshaw? Algo assim...

Lembra?
"Não sei o que estou fazendo aqui". Respondeu você quando questionado porque escolhera o curso de jornalismo.
Ora, ora, a resposta você sabia já. Só não quis revelar né?!

Você sabia que estava lá para se tornar essa excelente escriba, ora bolas.

Beijos
Amo-te!