segunda-feira, 3 de maio de 2010


Hoje eu só queria que o meu sentimento fosse forte e grande o suficiente para fazer você perceber o bem que ele faz e construir histórias reais, multiplicar os sonhos em vida. Queria que fosse capaz de mudar nossas diferenças, de converter os meus e seus gostos e projetos em nossos. Que ele fizesse a gente feliz hoje, na semana que vem e quando a gente tivesse velhinho. Que ele fosse tão puro, que ao tocar as cordas da guitarra a melodia mais serena e doce que vibrasse dali fizesse a gente lembrar ele. Queria muito que o meu sentimento te contagiasse e te libertasse. E em você sendo você me amasse assim como sou. E a gente pudesse compartilhar tudo. Somar, dividir, crescer. Era pra ser assim. Era pra ser diferente dessa vez.

Mas o meu sentimento é amor.

Só isso.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Olhares e sorrisos


Era uma sexta-feira cinzenta de abril. E a cantada sem graça parecia a única coisa a descortinar a luz, em meio ao cansaço e chateações de um dia turvo. O reboliço e burburinho da cidade não foram suficientes para sufocar a frase. Desajeitada, dita sem convicção, ainda acendeu um sorriso. Talvez por não valer ser levada à sério. Servia somente para demonstrar que há outros olhares, observando o suave movimento dos cabelos, banhados pelo sol. Sem importar se tantas ouviram o mesmo bobo galanteio, saber-se notada era uma sensação que, por pouco, não esquecera. Mergulhada em suas esperas e dúvidas, chegou quase a perder o gosto. Riu mais uma vez. E outra. Por um segundo, preocupou-se se percebera a alegria proporcionada. Besteira. Queria mesmo era desfilar as sapatilhas vermelhas pelo asfalto quente e sentir a vida, vinda de todos os olhares.

terça-feira, 6 de abril de 2010

De silêncio e saudade

Hoje seria seu aniversário... e a luz que brilha hoje vai muito além das tantas chamas de velinhas sopradas em meio aquela alegria e bolos confeitados...
Não há palavras para falar do meu amor e dessa saudade.
Do meu coração, hoje, grita o silêncio.
De onde estás, sei que podes me ouvir.

"Beijo, beijo, beijo. Te amo, te amo, te amo!"

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"Amor tão grande, amor tão forte, amor suave, amor sem fim
Que a própria morte transforma em vida,
abraço eterno de Deus em mim
Nem as correntes das grandes águas,
conseguirão apagar esse amor
Pois suas chamas são fogo ardente
mais do que a morte é tão forte esse amor

De abraço esmagante, de ausência torturante
De noite e luz é feito esse amor
De dor incomparável, consolo inestimável
De vida e cruz é feito esse amor

Nem as correntes das grandes águas,
conseguirão apagar esse amor
Pois suas chamas são fogo ardente
Mais do que a morte é tão forte esse amor
"

(Abraço Eterno - Suely Façanha/Composição: Nicodemos Costa)

http://www.youtube.com/watch?v=UGOXNEK_OuY

quarta-feira, 24 de março de 2010

E se eu morresse amanhã?

E se eu morresse amanhã?
Diria que foi suficiente. O tempo, o amor, a vida. Moderada entre o vazio e o intenso. Nem muito, nem pouco. Na medida.

Saberia como é bom amar com todos os sentidos, até ficar sem um. E mais que saber, se sentir assim por alguém. Amada. Mesmo que hoje o sentimento ganhe outra conotação e se perca no comum.

Teria andado de skate, carroça de burros e avião. Subido em árvore, chupado manga no pé, levado picada de marimbondo e caído das nuvens direto no chão.

E contado estrelas, estripolias e alegrias. Até feito pedido para alguma cadente. E escrito uma crônica. Mesmo que sem graça, dessas que ao final não se ver motivos para comentar, quando muito, passar a frente.

Teria rodopiado, na ponta do pé, com aquela dança, ficado zonza com as dúvidas e do alto da roda-gigante lançado pitomba na população. Erguido castelos de areia e arquitetado planos de fuga e sedução. - Basta, nunca saíram do papel! Coisas de criança. Coisas de mulher: surtos de tpm ou outra coisa qualquer.

Teria ainda visto um gato nascer, uma coruja voar e um mundo desfarelar-se com a força de um não. Aprendido que com o tempo tudo pode ser refeito, melhor e mais bonito. Basta ter fé.

Provado o sal do mar e da lágrima. Adoçado a sopa, por engano, e a vida de alguém quase sem intenção. Azedado a panela de doce e por vezes a alma, além de amargar uma e outra desilusão.

Haveria rido com o palhaço, da dor e do escorregão. Contado piada infame. E chorado com a morte, por amor ou até a barriga doer de tanto rir. Encontrado paz na criança dormindo, no calor de um abraço e no silênio de uma oração: “Toma, Pai! Tu sabes e podes tudo que eu preciso. Eu confio em Ti”.

Se eu morresse amanhã, teria batido boca com o chefe, cabeça com o namorado e perna com a amiga. Comprado roupa na feira, corrido atrás de borboletas, cruzado o mundo pela internet e vencido brutamontes com a suavidade da pelica.

Teria me estressado com o cabelo, com o trabalho, o TCC e a festa de colação. E me emocionado com a vitória, com as histórias reportadas para esse ou aquele jornal e duvidado se vou seguir para sempre essa profissão.

Conheceria o gosto de uma decepção, de ser odiada a troco de nada, a importância de ser perdoada e a alegria de ganhar rosas sem uma ocasião.

Pintado o dia de amarelo, a unha de céu e a boca de vermelho. Encontrado bons amigos, algumas respostas e me perdido no desejo. E me encantado com um beija-flor, com a lábia barata de algum cafa e, nos momentos de desespero, dobrado o joelho e buscado o Senhor.

Se o tempo findasse rápido, buscaria ouvir teus olhos, a música favorita e aquele conselho de mãe. Mesmo que já não pudesse reverter o feito, tiraria daí mais uma lição. Brindaria a vida, comeria um chocolate com avelã e me envolveria nas asas dos três irmãos.

Lamentaria não saber nunca assobiar, fazer bola de chiclete e não ter um filho. Não ter criado outro labrador, comprado o sofá amarelo e nem conhecido o Cristo Redentor. Recordaria a melhor infância que meus pais puderam me dar e agradeceria a Deus por esta família.

E se amanhã me faltasse saúde, viveria a certeza de que os queridos, que enchem mais de uma mão, por amor e zelo, dedicariam a mim forças e ouvidos para ouvir minhas lembranças e lamúrias, como também para sustentar meu corpo e coração.

E quando eu já não estivesse aqui, com saudade e doçura, remexeriam meus sapatos, bonecas e livros e achariam algum escrito que diz: "Tão jovem e sonhadora viveu nem muito, nem pouco. O suficiente. E foi feliz".

segunda-feira, 8 de março de 2010

(Des)Construção

Resolveu edificar
a começar, tirou as pedras
uma a
uma
depois outra
e mais
até que não sobrasse nem o piso...
a desconstrução do que poderia ser
deveria ser
Foi(?)
uma enxurrada de entulhos
picareta doída
inaudível
quebrando os tijolos de duas vidas
uma
e outra
e mais
frágeis sonhos a cair
desfeitos
esfarelados
sólidos como lágrima
sustentáculos de lembranças
vulneráveis ao vento
teimava em se firmar
… na esperança
a qualquer momento desmoranaria
colunas em espiral
Volta
e outra
Ruína
O telhado
vidro quebrado
já não cobria o céu
e pôde se ver através da falta que ele fazia
o azul
tão maior
De pé,
só a poeira
embaça o coração
arranha a garganta
se desfaz


- LEVANTA!
É tempo de construção!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

O pulo


Ele pegou a minha mão e disse para eu pular. Pronto. Era só o “empurrão” que eu precisava para me atirar dali. A segurança de que não estaria sozinha e poderia compartilhar o impacto da queda, bastava para cessar o receio da ponta do pé. Não era a palavra, mas como foi dita, entre um olhar acenado com a cabeça e a mão segurando suave e firme a minha. Pula! E eu me joguei. E aproveitei cada segundo daquela sensação de ladeira de Marpas, enquanto o coração subia a boca e o vento descompunha o cabelo e o vestido. Uma eternidade em dois, três segundos. Intenso e leve como deve ser. As nuvens ainda estavam lá quando pisei o chão.
Há atitudes que são assim, dispensam pára-quedas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sagrado é ser feliz!



Ela buscava entender e por não conseguir, resignou-se em esperanças. Debulhou o terço na intenção de encontrar na fé, a resposta. Desde cedo aprendeu que na dúvida, um pai-nosso e dez ave-marias poderiam evitar que caísse em tentação. Mas não dessa vez. Já não havia mais dedos ou contas, talvez sequer a intenção para a reza. Era mais uma de suas batalhas interiores para assimilar aquilo que sentia. Queria classificar, dividir e dessecar as partes para saber o que sobraria. Seria amor?

Que jeito mais estranho de querer ser racional! – pensava enquanto a boca carnuda sussurrava a oração, com o mesmo fervor que o desejo a consumia.

A ansiedade crescia e contava os dias com pressa igual a das bolinhas azuis passando entre os dedos. As lembranças não deixavam-na desistir. Os projetos, também. Sabia-se pequena e pecadora e por isso se apegava as rezas. As mãos que há pouco largaram o rosário, para abanar a poeira dos joelhos, eram as mesmas que puxavam a camisa para abraçar o corpo quente. Seria isso sacrilégio??

A esperança de que tudo voltasse a ser como antes, já não existia. O 'por que'estava na velha mania de tentar mais uma vez, sempre... Nunca aprendeu a ser diferente. Em caso de dúvida, entre o certo e o que pede o coração, já sabia qual o caminho a seguir, mesmo que muito lhe custasse. Mas agora era diferente, precisava discernir entre o que realmente importa e o que nem tanto. No último mistério, pedia a Deus coragem.

“Mas livrai-me do mal. Amém.”, repetia com intensidade.

Orava assim, dobrada pelo amor; martirizada pelas incertezas; tomada de vida!

Enquanto as respostas não vinham, desejou reencontrá-lo logo, mais uma e outra vez. Estar juntos esvaziava os questionamentos do que e como seria.
Sagrado é ser feliz!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

FELIZ VIDA!



Eu iniciei o ano que acabou brindando o novo e desejando que ele viesse em várias formas. Fiz lista de promessas que não cumpri. Entrei de amarelo, em praia diferente e ao lado da família. Muita coisa aconteceu nos 365 dias que se seguiram, tive novas experiências, boas e más, mas sobretudo me renovei e me amei mais. O ano acabou com uma nova Sara que, apesar das velhas manias e mesmos valores, é meio assim, outra. Não houve grandes novidades. Até o amor, voltou a ser o velho. Aquele de sempre. O trabalho e a correria se mantiveram, sem grandes alterações. Mas a mudança foi interior. E me deixou com ares mais de si.
Hoje caminho suave, independente da altura do salto, com o passo mais firme. Sei para onde quero ir e nunca esqueço quem eu sou.

Foi um ano bom, apesar dos altos e baixos, dos acertos e incertezas.

2010 começou diferente. Ao contrário dos anos anteriores, não fiz listinha de promessas. Não comprei vestido branco ou calcinha na cor da sorte. Não passei no salão antes. Nem usei o celular na hora da virada. Também não bebi champanhe, no meu copo só lambrusco ou coca-cola.Nenhuma simpatia ou superstição.Tampouco relembrei as tristezas e agonias do ano que acabara. Apenas agradeci a Deus por tudo. Tudo mesmo. Era novo o tempo, o minuto, o segundo a seguir e eu estava linda em listras laranja. Recebi abraços, sorrisos, desejos de paz, lágrimas e elogios. E me permiti a não ter compromissos com coisas que não convém, só a buscar minhas metas, de mansinho, na hora certa.

O reencontro com ele também foi diferente. No estourar dos fogos, eu o vi ressuscitar em cores e formas divertidas, enquanto olhava para o céu. A lágrima que rolou, não tinha nada com tristeza, mas me senti encorojada a ir em frente. Foia bênção que eu precisava. E a abracei forte na certeza de que poderia cuidar melhor. O sorriso foi meu principal aliado até o final da missa e só multiplicou-se na ceia com tantos queridos. Comi horrores e ri mais ainda.

Entrei o ano, como novo.

Os problemas são os mesmos. As dúvidas também. As caras murchas ao redor, assim como o marcador na balança também continuam lá, sem que eu possa mandar pro espaço só com um estalar de dedos. Mas é outra chance de acertar e ser feliz. Mais feliz. De estender a mão e tirar pra dançar. De encontrar o passo certo, a música, o par. E aproveitar tudo antes que a festa acabe.
E eu continuo com minha taça erguida.
E que venha o novo, de novo!
FELIZ VIDA!!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Muito obrigada, Senhor!



"Por isso vos digo: tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado." (Marcos 11, 24)

Por que Ele disse que não me abandonaria...
E eu acreditei!
Obrigada, Senhor!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Já, já amanhece


Afastou a cadeira. Pegou a bolsa e deixou sobre a mesa a xícara, ainda cheia da bebida fria, e algumas moedas para o bolso do pequeno homem. Seguiu em direção a porta. Desviou daquela garrafa no chão e de olhares vindos do balcão. Caminhou como quem busca ar para os pulmões, cheios de fumaça de outros dias. Decidida. Preocupada em não perder a hora outra vez. Lá fora a rua estava clara e tumultuada. E ela era só mais uma na multidão. Passos lentos, atentos a movimentação. Mais leve. Mais si. Não se sentiu diferente do mendigo, do menino que cheirava cola, ou daquela que vendia prazer por alguns trocados. Talvez o que lhes faltassem, era o que ela tinha de sobra. Mas resolveu não jogar os restos, assim, na poeira. Não entenderiam. Andou altiva. O bar, a xícara, a porta aberta ficaram para trás. Só algum gosto ainda amargava na boca. Respondeu o boa-noite, sem virar o rosto, enquanto o vento quente parecia empurrar, docemente e sem pressa, os ponteiros daquela vida. Era ainda 23h04. Tinha muito pra ver, andar, respirar. Afinal, estava viva. E a madrugada sempre puxa o cobertor para o sol.

Um novo dia é tudo que basta!
Que sorte... já, já amanhece!

sábado, 28 de novembro de 2009

Rosas


Eu escolhi as rosas.
E as quero. Muitas. Em todas as cores.
Por que são vibrantes, amarelas, pintadas.
Grandes, miúdas, românticas, vivas.
Por que deixam tudo mais leve e perfumado.
Apesar dos espinhos, do tempo curto, das folhas secas, água amarelada.

Por que encantam a vida.
E a morte também.
Por que representam celebração.
Ao amor.
À beleza.
À vida.
Pequenas delicadezas roubadas pela dureza da vida.

Por que é poesia.
Por que é música.
Por que é poeta.
Por que, Rosa.

sábado, 21 de novembro de 2009

De pernas cruzadas



Sentou-se e cruzou as pernas.

O salto fino dava idéia de seu estado: um pé no chão, outro pronto para voar, para quaisquer das direções que o bico apontasse. Era uma questão de movimento. Ou de chamar a atenção. A verdade é que tentava disfarçar intenções, enquanto o café levantava com o vapor o pensamento. Quente e forte, como o líquido preto. Aquela altura, era mais fácil silenciar o desejo em pequenos goles. Como quem espanta o sono para adentrar a madrugada.

Buscava olhares. Insinuava discrição. Gritava por mais.

Trocou de perna e o movimento logo foi percebido. Mas, somente o garçom veio oferecer-lhe outra xícara. A oferta era pouco, mas aceitou. Aquela altura, era difícil engolir todas as vozes, vontades e inquietações contidas no copo, no corpo. O coração, cansado de enganar-se, procurava novas promessas, ditas sussurradas, devagar, com aquela sinceridade que aponta o caminho. A porta para sair. Ou entrar.

Mas o sabor daquele canto de sala parecia acomodar, em pequenas almofadas, os ideais de uma vida.

E ficou ali, sentada.
Perpassando pernas, ajustando a saia, adequando sentimentos.
Estacionada.
A pensar com seus sapatos. Ganhando tempo. Perdendo sonhos. Enquanto o café esfriava sem lhe trazer a boca o calor do amargo. Do doce. Do gosto.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Cai.

Gota a gota.

Como quem se derrama.

Se entrega por inteira, se deixa, se dar.

Se enche e transborda.

Pinga.

A lágrima.

Outra e mais outra.

Curvada como pétala que cai.

Vermelha.

Era rosa.

Como quem, se der, ama.

Chora alma, chora sangue.

Se desfaz.

Gota a gota.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Aprende


"Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel."

(William Shakespeare )

Um dia de espera e saudade
Uma novidade para partilhar
Um plano para sonhar
Um sonho para planejar

Tudo isso atropelado por essa intolerante desconfiança.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sem castelinhos de areia


Eu não sabia se era medo, precaução, nem o mais certo a fazer, mas na dúvida resolvi me jogar. Sim, me lancei novamente sem saber no que vai dar. Porque eu não sei viver pela metade. Nem somente avaliar, enquanto os dias passam. Aliás, é pouco o que eu realmente sei nesta vida. Sou assim. Sou a favor do inteiro, do muito, cheinho pela boca e com a torneira aberta para não esgotar. Afinal, apesar de sonhadora, faz-de-conta nunca foi meu joguinho favorito. Talvez por cinco segundos ou o tempo de lavar os quase, os se, os como seria e colocar tudo para quarar. Talvez a brancura deixe tudo mais claro. Será?

Sentar de costas para as ondas e construir castelinhos, com torres, soldadinhos e princesas, cercado por lagos, e ficar ali, formando uma barreira por temer qualquer marolinha transformar em ruína a fortaleza cinza? Nãm. Sem graaaça essa brincadeira!

Prefiro mesmo é me molhar, mergulhar, pegar jacaré. Sentir o sal na boca, a areia na pele, a água morna jogando o cabelo nos olhos, enquanto o sol colore tudo. Levar caldo e descobrir que a onda passa e a sensação de afogamento vai embora também, mas o mar continua ali, convidando a diversão. Tão contido e agitado como a onda que passou ainda há pouco. E nesse vai-e-vem parece se renovar, se encher e esvaziar, sem deixar de ser mar. E vá saber se não é a mesma onda, aquela de agora há pouco, a do caldo.
Será?
Como saber? Justo eu que realmente pouco sei da vida!

Mas, na dúvida, decidi mergulhar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

De papel, cores e incertezas


A caneta deitada sob o papel esperava a inspiração, que cismou em não vir. Emoções a serem decodificadas, angústias para se traduzir, interrogações em busca de respostas, quaisquer letras que preenchessem em azul o vazio, o silêncio, o branco. As gotas de tinta ansiavam tanto quanto as mãos por sentimentos outros, que movimentassem a ponta fina e rabiscassem saídas, conclusões, começo. Mas nada se movia. A não ser pelo vento indiferente arrastando a folha nua pela janela. A luz rebatida destacava as cores daquela manhã de domingo. Contrastando com o céu, dava conta que a vida acontece lá fora, sem esperar por registros ou certezas.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sem saber como seria, se fosse


Era quase meio-dia. O sol forte consumia não só líquidos e sais, mas o resto de idéias que povoavam-lhe a cabeça. Por um momento, pensou em ligar. Ouvir sua voz, mesmo que breve, poderia reverter o calor em maresia. Mas o que dizer? Já não havia desculpas para disfarçar o desejo. Escancarar a fome, a boca sedenta pela tua, não parecia boa idéia ou qualquer coisa que aquela temperatura infernal deixasse escapar. Consultou novamente o relógio, se foram 36 segundos desde a última vez. Mas o intervalo era espaçado demais, para caber ali toda a angústia, dúvida, vontades. Abriu a carteira e logo depois um sorriso. Sem saber como seria, se fosse, catou moedas e se fechou em um coco verde, enquanto olhando para o nada, via a vida e os carros passar. O orgulho é uma daquelas armadilhas do “Se”.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ela



Tem certas coisas que nos devolve a nós. Estar em casa é uma. Não há nada novo, os móveis estão dispostos na mesma ordem que ontem. A cadeira, com o encosto quebrado há semanas. A parede descascada lembra que a mão de tinta não veio com o ano que passou, mas ainda assim a cor é alegre e aconchegante. É interessante me achar em temperos, travesseiros, pelúcias e até no vento que passa rápido pela varanda, mas sempre vem nos visitar.

Algumas pessoas também têm este poder.

Com ela é sempre assim.

O olhar profundo e a palavra firme fazem brotar a doçura. E se o sorriso é quem se abre primeiro, a paz reina sem pressa de ir embora. As mãos finas e delicadas, sem esconder as rugas e a dureza dos dias, são o melhor afago para arrancar o riso ou secar a lágrima. O cheiro entranhado nelas é bom, mesmo quando cortam cebolas. O colo. Ah! Este merecia um parágrafo único, por ímpar que é. Mas é seu amor generoso que mais me encanta e constrói. Nunca soube ao certo quem é o seu preferido. E como é bom saber-se igual!

Ela não é a minha melhor amiga, daquelas a quem se contam os segredos, desassossegos e desejos mais descabidos. Contudo, sem que eu abra a boca, ela já os sabe só em me olhar. É a minha conselheira favorita, que tem a palavra certa na hora certa. Ela às vezes não entende, mas sempre me mostra e faz buscar sabedoria, só Deus sabe de onde (ela deve saber também). Foi dela que eu senti saudade no primeiro dia na escola e no primeiro carnaval nas ladeiras de Olinda. É dela que vem a coragem para acreditar que tudo vai melhorar, cedo ou tarde. E que nem por isso devemos nos conformar e só esperar. É quem me lembra que preciso rezar mais, economizar mais, aprender mais e continuar lutando.

Embora a profissão e a paixão não a deixem largar a escola, mesmo aposentada, foi com outra que aprendi o bê-a-bá. Mas foi em outros bancos e salas, que ela me ensinou a colorir o mundo, somar alegrias, partilhar o pouco, entender que o outro é igual a mim, apesar de tudo, e que cabe a mim, me melhorar pra vê-lo mais bonito. E ter força para levantar após uma, duas, três rasteiras ou de uma noite inteirinha de chuva no travesseiro, se confiar nEle.

Apesar do nome de santa, ela não o é, graças a Deus. Mas traz em si o poder de dar a vida e na sua finita humanidade, me incita a buscar o céu. Foi ela quem me disse que eu tenho um anjo da guarda, que sempre vela por mim. Só não falou que este anjo também faz o prato favorito, cuida do machucado e até hoje sente prazer em gastar as suadas economias comigo, e não com si. Isso por ser uma das rosas que a santa xará,vigilante na cabeceira da cama, carrega no colo.

E eu a amo porque ela me traz de volta. Embala o sono e faz perceber a beleza do simples. Porque ela é assim. Com ela é sempre assim! O dia fica mais ameno, não importa o tempo lá fora. E eu sempre enxergo melhor a vida, os outros e a mim nos seus olhos. Isso porque venho dela e muito do que sou, é ela.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Cansada da vida


Mas eu não penso em morrer. E não é por medo. Mesmo por que decobri há pouco e de forma crua, que a morte é só uma saudade certa de não ter fim. Também não é por ter ainda muito para aproveitar. Ultimamente e com frequência tenho questionado se realmente tenho vivido e as dúvidas sempre predominam . Mudar de vida? Um corte de cabelo novo? Outra profissão? Mais dinheiro? Casar? Comprar um shake? Ir pra China? Continuo sem novidades. A chuva cai e eu penso na vida e me sinto cansada. Mas eu não penso em morrer. Até sonho, com outros mundos, outros amores, outros projetos, contanto que sejam fáceis. Mas não é. É tudo tão difícil. E há tanto tempo. Às vezes, o corpo se torna pequeno para o peso da alma e não há forças para se construir todo dia. A realidade sempre vem e te acorda. E hoje parece ainda mais enfadonha. Mas, apesar de todo cansaço, eu não penso em morrer. A vida se renova mesmo quando não percebemos as mudanças. E a chuva já já cessa e seca a alma.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Reencontro


A saudade era imensa, assim como a surpresa do reencontro.

As fotos na velha frasqueira traziam doces momentos amarelados. Diferente das peças hoje penduradas no guarda-roupas, o sorriso era uma das poucas coisas de criança que ainda conservava, ao lado de sonhos que iluminam os olhos. Um pouco de medo e teimosia deram o tom dos passos - nem sempre acertados. Não diria inocência, mas mania de acreditar primeiro no lado bom, mesmo que depois "queime a língua" ao perceber o contrário. Há coisas que não mudam com o tempo.

Apesar de algumas transformações, o cenário se prendia aos mesmos alicerces de antes para mostrar a força das suas bases. Assim como a paisagem ora verde, ora queimada dos canaviais de sua infância ensinara a enxergar além da poeira de carvão que pendiam dos talos, que as chamas são necessária para apurar a doçura dos dias mais simples. O contraste entre o barro da estrada sob o túnel de bambu, na entrada da vila, acendia o desejo de ir. A casa, mais que um chão vermelho e paredes suadas, que há muito veio abaixo, se mantinha firme nas lembranças.

A conversa no pé da cerca. O balanço no quintal. A água de sabão que corria do tanque. O cheiro de café no fim da tarde. A espera pelo apito das cinco, que trazia de volta aos pequenos castelos seus reis em uniformes azul e capacetes vermelhos de operário. O mundo era tão maior e mais bonito como as finas mãos que advertiam cuidado na hora de voltar para casa, enquanto os pés corriam descalços sobre pequenas pedras e debaixo de gargalhadas. A vida era infinitamente mais fácil, mas não se avisava isso aquela época.

Os trilhos de ferro, em frente a casa, lançavam centenas de milhares de fagulhas e passagens, enquanto, apressado, o maquinista borrava o céu de cinza. Assim como o velho trem, o tempo também não reduziu a velocidade. E de repente estava ali, parada, a olhar os olhos, o sorriso, os sonhos. Queria saber rápido o que perdeu no caminho, apesar da bagagem abarrotada. Em frente aquela imagem refletida no espelho viu além das primeiras rugas e fios brancos. O reencontro naquele momento da vida vinha da certeza de quem era e como chegara até ali. E o sorriso infantil tomou-lhe, mais uma vez, o canto da boca.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

De passos, erros e dança




Há coisas, muitas, que simplesmente sinto. Às vezes olho, olho, paro, observo, depois pego e balanço, ponho de cabeça para baixo, mas nenhuma resposta se mexe. Estão lá, eu sei. Imóveis, todas a rirem da minha ignorância. É nesses dias que me vejo da estatura que sou, bem longe do meu 1,68 m. Nos dias em que os tons mais escuros se derramam e alteram a ordem na palheta de cores, de modo a tornar quase impossível enxergar de olhos fechados. E o cansaço já não é suficiente para fazer o coração sonhar. Ontem foi um desses dias.

Ontem a tristeza me tirou para dançar. Em hora indevida e música desafinada, ela insistiu em fazer comigo par. Não sei por que cargas d’água escolheu a mim. Tantos sentados naquele banco vendo a vida passar, estender a mão e parar justo quem corria contra o tempo. Vá entender por que aceitei. Mas naquela solidão, recostei-me no seu ombro, enquanto os olhos acompanhavam o movimento pendular daquela vida. Um pra lá, um pra cá. Dois pra lá, dois pra cá.

Fora do tom, meu coração parecia ainda menor que eu. Apertado, confuso, sufocado. Ora pela distância, ora pela presença, ou pelo saldo negativo. Por descobrir que alguém pode me odiar, mesmo sem justificativas. Assim, a troco de nada e declaradamente. Por saber que, mesmo sem intenção, posso machucar quem amo. Por que nem sempre as escolhas são acertadas. Tampouco a realidade igual ao planejado. Tais quais os passos trocados, entre erros e acertos.

Entregue aquela valsa - sim, porque, apesar de maçante, a tristeza é companhia delicada – aprendi que os pés nem sempre seguem o ritmo tocado e tudo meio que desanda. É nesses dias que gritar bem alto, mandar parar a música e o relógio, parece ser a única forma de fazer as respostas acordar em grande estardalhaço. Mas ali, naquele salão vazio, apenas um silêncio ensurdecedor se fazia ecoar, enquanto ela novamente me estendia a mão, sem importar-se com os tropeços ou pisões.

“- Desculpa, estou aprendendo a dançar”.

Tu e eu




"Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albônico.
Tu,fão.
Eu,fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu,piniquim.
Eu,ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu,multo.
Eu,carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu,clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu,tano.
Eu,femismo".

(Luis Fernando Veríssimo)

terça-feira, 23 de junho de 2009

De DúVidas e de Vida


E quando menos esperou, se surpreendeu em encontrar aquelas mãos envoltas nas suas. A suavidade do toque não escondia os calos de antes. O coração desembalado tentava frear a carreira ladeira abaixo, porque já sabia aonde aquela ‘banguela’ iria parar. Se é que iria. O calor que vinha da boca vermelha corava o rosto com as suas intenções. Sentiu vontade de afastá-la e impedir que cumprisse o seu destino. Afinal, não acreditava mais em sonhos. Mas ali, entrelaçada por braços e sussurros conhecidos, já não sabia fazer escolhas. (Escolher viver é não medir conseqüências?) Tentou gritar, mas não conseguiu, mesmo porque ninguém ouviria. Rapidamente, o rosto inclinou-se em direção ao seu, as emoções se multiplicaram em razão maior que as dúvidas. O calor. A boca. O grito. De súbito, abriu os olhos. O relógio marcava 7 horas da matina. Ainda com hálito de paixão, arrumou os cabelos e o vestido e saiu para mais um dia de vida real.

domingo, 31 de maio de 2009

O despertar

A tarde se despedia com rubros acenos, que enfeitavam o céu em tela-viva e a sensação era de quem acabara de despertar. Os olhos abertos e curiosos, depois de muito esfregá-los, vislumbravam a serena inquietude dos dias mais quentes. A boca seca gritava por novos, velhos, todos os sabores que se pudesse provar, enquanto o azul-marinho tingia a malha celeste e a moldura ganhava pequenos pontos de luz.

Como quem tem todo e nenhum tempo, desci as escadas à procura do que não vivi. Já passava da hora de sempre e eu começava a acordar em mim todos os sonhos e desejos adormecidos até a noite passada (ou seriam anos?). A urgência da descoberta que estava por vir fazia espantar a preguiça dos primeiros instantes. Pensei em pedir mais cinco minutinhos, envolta em colchas quentes de lembranças e retalhos do passado, mas a vida pede a pontualidade do encontro.

A princípio, tentei calcular, na ponta do lápis, quanto e como recuperar a soma dos dias que deixei passar. Talvez juntar aos punhados os ideais e planos que aquele calor insuportável sacudiu da cama do conformismo. Ou em outra equação, elevar à potência os vindouros restos dos meus dias e encontrar a razão entre o feito e o por fazer. Até que lembrei que sou dada às letras, à poesia e à prosa, e não aos números ou a esta vã matemática, que só me causa dor de cabeça.

Abri a porta em busca das respostas. Andei como quem está atrasado para uma entrevista. E eu estava. A noite já caía com a pressa das horas que acende faróis e faz ascender o sagrado aroma de café, como incenso para o ritual da lua. A boca ainda seca cantava a ave-maria, enquanto o coração ansiava por outro José. Sem me importar com as pedras embaixo do salto e as roupas de cores cansadas, como aquele céu que se desfazia em azul acinzentado, me alegrava a cada esquina virada.
O viver exige estranhas e doces ousadias como brincar debaixo de chuva, ou dançar na rua, sem perceber os olhares vindos dos carros.
E eu trazia a disposição de quem acabara de acordar de um sono bom.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Estranha mudança


“Mudaram as estações nada mudou
mas eu sei que alguma coisa aconteceu... “


A cor não era a mesma, o tom vinho velho tinha sido substituído por um azul marinho reluzente, e eu demorei alguns segundo para reconhecer. Mas lá dentro, o sorriso era o mesmo. Os olhinhos apertados brilhavam e foi o meu coração que se apertou quando o olhei. Há muito não via aqueles olhinhos nos meus. Não havia nada de novo, a não ser pela nova conquista, que, claro, fiquei toda orgulhosa. Em outros tempos, seria uma cena corriqueira, mais uma entre as milhões de vezes que iria me buscar. Mas não era isso, não dessa vez.


“...tá tudo assim
Tão diferente...”

E não era só a cor do carro, o papo que não fluía, o não saber onde por as mãos e os olhos, deixar a colher cair ou porque ele aprendeu a tomar açaí nesses últimos meses. Não sei se ainda estava ali. Eu jurava que não estava. Mas ali, na mesa, por vezes sentia-o de novo, como se quisesse arrebentar e se fazer notar. Outras, ele mesmo se sufocava em dúvidas: se por carência afetiva ou por saudades de um tempo bom. Afinal, vivi tanta coisa ali, que a entrada naquela casa parecia remexer a poeira e com ela fazer levantar todos os momentos, as lembranças e saudades que teimavam em me dar um ‘oi’, como cumprimento de boas-vindas. E foram tantas as cenas, imagens e histórias me rodeando, como um filminho em diversas telas, que fiquei zonza e não pude, nem soube disfarçar.

“Se lembra quando a gente
Chegou um dia acreditar que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre
sempre acaba...”

É estranho perceber que as coisas mudam, apesar de tudo. E que outras não, apesar de tudo. É estranho que paredes, móveis e até aquele cachorro que veio saudoso me receber pudessem guardar tantas palavras, gestos, gostos, sussurros. Estranho não conseguir definir o que senti, o que estou sentindo agora. Mas to sentindo, mudou. Mesmo que a mudança seja o sentir. Tomei sorvete como antes. E no momento em que fiquei sozinha, parecia dividir a cena daquela sala parada, com outros personagens no papel de ‘nós’, em outras épocas, estrelando “o macarrão”, “sessões de vídeos” e o encantador “escalda pés”. Estranho que só chegaram os bons.
"Mais nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguem, só penso em você
E aí então, estamos bem"

O mais estranho que foi tudo diferente. Claro, porque eu estou diferente, ele observou. E eu continuo a mesma menina que pouco sabe da vida e de amor então... Que sente saudades e tenta sentir o mundo para melhor entende-lo. Porque o amor, já desistiu de entender. Mas o sente. Estranho sair dali e saber que todas as recordações estarão lá, guardadas, a espera de uma nova visita. Talvez, algum dia eu volte para um café rápido. Estranho ver o caminho de volta para casa, com a certeza que a saudade e as lembranças sempre me acompanharão, mesmo quando não tiver mais amor. Estranho não te-lo beijado quando o quis.

“Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está
Nem desistir nem tentar agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa”

sábado, 18 de abril de 2009

Não sei brincar de gente grande



Ser ‘grande’ não é tarefa fácil. Nunca foi. Mas quando eu era pequena achava que seria. Era fantástico imaginar que aos 20 (idade de velho), todas as coisas estariam resolvidas, eu teria meu possante amarelo, moraria sozinha num alto apartamento, vestiria tailleurs e viajaria ao menos uma vez por mês, porque, claro, eu já seria formada e rica nessa época.


A cada idade mudava a resposta para a célebre pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”. Sonhei em ser professora como a minha mãe; veterinária para salvar as indefesas formigas e borboletas; presidente do Brasil para acabar com a inflação, porque eu não agüentava a mudança de preço a cada dia quando eu ia comprar balinhas na venda de Zé de Godô – um homem tão feio, que eu jurava que tinha sido descartado do papel de Gargamel, porque poderia tirar o sono dos pequenos espectadores dos Smurfs.


Também teve a fase de arquiteta, artista plástica e publicitária, porque eu sempre amei desenhar. E durante as Olimpíadas, ser campeã de vôlei, como a Ana Moser (só que bem mais bonita). Mas a melhor era a fase da “Femme Fatalle”, imaginar que poderia escolher, literalmente a dedo, o meu príncipe em uma looooonga fila de apaixonados; para isso testava a eficiência das táticas, que passavam desde as inocentes interpretações de Cheetara (a única felina dos Thundercats), ao vento no vestido de Marilyn em P&B, até os beijos calientes que arrebatavam o coração de Tom Cruise em Top Gun, Cocktail, A Lenda, Dias de Trovão, Nascido em 4 de julho, A Firma e... não, Rain Man, não, please!


Mas hoje, depois de ter saído ontem a noite pra tentar abstrair mais um dia cão naquela redação - porque no final das contas, depois das mil opções, virei jornalista - com uma amiga querida e outra que acabara de conhecer e me divertir na balada, dançar, encontrar amigos e voltar para casa feliz, eu dormi e acordei sozinha. Pior, eu acordei sozinha e doente. E não era ressaca. Não tinha ninguém em casa. E eu me dei conta que, apesar da jornada de trabalho, do canudo e das várias faturas que terei que quitar até o fim de semana, ainda não aprendi a cuidar de mim nessa situação. Não me lembro de ter visto esta parte no manual de sucesso “de quando eu for grande aos 20 anos”, nem no dos “20 e alguns”...


Depois de passar mal várias vezes, liguei para a minha mãe. Tive ainda que ligar para o meu chefe para avisar que não poderia ir trabalhar. Ainda pensei em ligar para o ex para pedir carona até o médico, porque aos quase 30 eu ainda não tenho meu possante amarelo. Claro que ele daria, mas resolvi não dar o cabimento e acabei não indo ao médico. Minha mãe ligava a cada cinco minutos para saber de mim e indicar alguma solução. As amigas também ligaram e uma até se ofereceu para trazer comida, porque eu ainda estava em jejum às 5 horas da tarde...


A noite estava um pouco melhor, depois de litros e litros de soro e chás. Da janela da casa quase vazia, eu via a meninada correndo e gritando embaixo do pé de pitomba, numa algazarra ensurdecedora, que deixou rouco até o Ed “Seja minha menina, só minha...". E eu me lembrei da tal pergunta e, desta vez, eu teria certeza da resposta: “ - Quando eu crescer, eu não quero ser gente grande!".
Vamos brincar de outra coisa?


(sim, sim, eu to carente!)

domingo, 12 de abril de 2009

Então, o que você me diz?




A música parou e eu ainda estava suspensa no ar.
Mas desta vez eram os pensamentos, e não os meus pés, que rodopiavam em meio aquele turbilhão de palavras, na tentativa de juntar novamente seus corpos no vão de silêncio.
Sim, já fazia silêncio e a palavra sabida, mas engasgada, teimava em não sair.
E o intervalo parecia se esticar para ouvir a resposta.

Mas o que responder?
A pergunta não era das mais pertinentes e feita de forma direta, escancarava todas as suas segundas e até terceiras intenções.
Pensei em arriscar um sim. Bastava isso para reduzir 549 quilômetros em poucos, pouquíssimos, centímetros. Mas ainda é cedo para saber se vale a pena.

Não que eu sonhe com príncipe encantado, do tipo que envia flores, escreve poesias ou se mete a entender a alma feminina só para melhor satisfazê-la. Não. Mas vamos combinar?! Ouvir sapos “arrotando” num coachado desconcertante está longe de ser um bom começo.
Hummm... e se eu o beijasse mais uma vez?
(aaaaaaaaaaaaii não sei!)

Alma feminina, não, não seria o forte dele. As flores, bem, acho que estas até viriam. Talvez muitas. Como nunca as recebi. Mas sinto falta da poesia. E não me refiro aos escritos de Vinícius, ou a música do Chico; mas as cores de Monet ou as mãos daquele chef do restaurante que eu adoro e que sempre me faz voltar para sua arte.
É mais uma questão de encantar.
De fazer se sentir especial. De conquistar...

- E dizer que sente saudades e querer vir todos os fins de semana desde aquele de tantas alegrias, cores e adereços, não é achar alguém especial?
- Está disponível e saber esperar, pacientemente, até que todas as desculpas se esgotem e a tal viagem possa ser feita, não é declarar interesse?
- Dizer que entra na net só para ver se tem recadinho e que vem para cá só para rever e reviver, não é bastante para conquistar?

- Então, o que você me diz?

- Eu acho que...

E aos primeiros acordes, os pés retomaram logo seu lugar e os ouvidos aguçados já eram, mais uma vez, sufocados pela nova música, que tocava numa melodia calma e contagiante preenchendo todos os espaços daquele longo e curioso intervalo.
A resposta?
Esta ainda não veio. Talvez haja tempo para alguns rodopios antes da música parar novamente e a pergunta ser refeita.

sexta-feira, 20 de março de 2009

A VERDADEIRA ARTE DE VIAJAR

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,

Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.

Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...

Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


(Mario Quintana - A verdadeira cor do invisível)


terça-feira, 17 de março de 2009

O tempo...


E a cor é nova
a fé a mesma
os valores inalterados, apesar das transformações
e esse tempo?

Com cara de novo
alma de sempre
sonhos de criança
pulso apaixonado
pensamentos de entardecer

Corro para não perder a hora
e esse tempo, corre por que?

Tons de crepúsculo logo darão vez ao alvorecer
a mudança pelo avesso
o passo rápido do alto do salto sob a chuva
dança o sonho na ponta do pé
e a razão toca as nuvens
de alma nua
coração na mão
antes que a música acabe... quanto tempo?

Corro para não me perder
na hora marcada
na prece dos olhos
no corpo suado
na palavra lançada
cortinas abertas
luzes acesas
O tempo agora é o meu

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Beijo, beijo, beijo. Te amo, te amo, te amo.


Estava cansada, suja, descabelada depois de um dia puxado de trabalho. Meus pés latejavam de cima do salto e eu só pensava em chegar em casa e me deitar depois de um bom banho. Já estava tudo programado. Seria na seqüência: abrir a porta, largar o salto e a bolsa no quarto, me besuntar de hidratante depois da ducha e dormir o sono da primeira infância. Mas parei.

A seqüência foi quebrada ao acender a luz do quarto. O livro aberto sobre a cama trazia a página marcada com o pequeno sorriso. Aquele sorriso que todos os dias me alegrava, que tanto me confortou e me fez ser o que sou. Desejei vê-lo rindo só mais uma vez. E fechei os olhos para segurar a lágrima e de repente o quarto se encheu com o som da sua risada. Risada fácil, que vinha até em situações em que merecia não aparecer.

Naquela foto, no marcador, ele me pareceu tão terno e vivo como todos os dias em que adentrava a porta do quarto para me beijar. O beijo mais doce que já pude receber de um homem. E ele o era não só no gênero, mas em toda a grandeza e simplicidade da palavra. Desejei só mais uma vez, me irritar quando puxava meu pé e mandava ‘pular embaixo’.

Paralisada, de pé, em frente a cama, o vi envelhecer enquanto eu crescia em lembranças de tempos que vão longe, mas que se faziam tão perto, tão real, que quase pude tocá-lo quando novamente ele me sorriu. E era o sorriso mais doce que já pude ver em um homem. E ele o era não só na palavra, mas em todos os gestos, exemplos, carinhos e lágrimas. Desejei só mais uma vez erguê-lo em meus braços e fazer com que sentisse que meu amor era grande e forte o suficiente para agüentar o peso da nossa separação.

As imagens se multiplicavam e o cheiro do seu olhar tomava conta não só do cômodo em que nos encontrávamos, mas de mim. Pensei em erguer a mão e pedir a bênção, quando ele inclinou a cabeça para encostar na minha. E senti seu corpo cansado me proteger e repetir nosso refrão: “- beijo, beijo, beijo. - te amo, te amo, te amo”. E era a declaração mais sincera que já pude ouvir de um homem. E ele o era não só enquanto humano, mas em toda sua alma. E desejei só mais uma vez poder abraçá-lo, ver as rugas marcarem seu rosto e ter a certeza que teria em quem me segurar se o mundo se abrisse debaixo dos meus pés.

Seu amor me envolvia como a uma criança, embalava e ensinava a ser do tamanho que o sonho pede e a realidade impõe. Sempre me deixou tomar as minhas decisões, mesmo ouvindo todas as hipóteses. Não precisava ter medo, seu abraço estaria ali. Desejei só mais uma vez chorar no seu colo, enquanto mexendo no meu cabelo, contaria histórias engraçadas do seu tempo e experiências que o trouxeram até ali. E era o melhor refúgio que já pude encontrar em um homem. E ele o era em toda sua fantástica sabedoria de ser de Deus.

Não sei quanto tempo passou, nem olhei o relógio naquela hora. Sentada na cama, só tinha olhos para aquela pequena imagem, agora já em minhas mãos (e em todos os sentidos), que me encantava com seu sorriso mágico. “E amou-os até o fim”, era o trecho marcado naquela página. E eu desejei amá-lo só mais uma vez. Porque ele não era só um homem, mas a manifestação do amor, o mestre, o amigo, o meu pai. E pai em toda sublimação e abrangência do ser.

Beijo, beijo, beijo. Te amo, te amo, te amo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Lá vem ele de novo


Eu resolvi que não ia procurar.
Que estaria aqui - linda e morena - para caso ele me aparecesse. Mas sem pressa.
Não iria atrás, deixaria acontecer...

Apesar desta minha mania de achar que o mundo não tem graça sem ele, talvez estivesse com mais medo, do que convicções. Afinal, ele me rendeu de um jeito, que me deixou graves seqüelas. Foi maravilhoso, sim. Mas depois tive que asfixiá-lo, com um grande travesseiro úmido e salgado, e assisti-lo agonizar até o último instante. Pois é, morreu e eu quase fui junto. Até que passou.

Mas quem disse que só temos direito a ele uma vez?
Que mania de achar que o 1º é sempre o maior ou o melhor?!
“O primeiro a gente não esquece”, é clichê do Olivetto em seu genial comercial, que mudou a forma de fazer propaganda e publicidade na década de 80. Ok, ok, a gente vai sempre lembrar. Mas isso não implica que por ser o bambambam. Porque não foi e nem é. O primeiro é só o novo. E tudo que é novo, marca. Ponto.

Quem lançou esta teoria medíocre do 1?
Um... Só isso?
Que mixuruca!
Não concordo. Aliás, tenho aversão a este numeral, em quaisquer dos seus formatos, seja romano ou arábico. Acho que o determinismo do um, o individualismo, este singular egoísta, deveria ser abolido das relações humanas.
Porque, convenhamos, que graça tem em ser, ter, fazer só um?
Já pensou o mundo monocromático? Um monólogo!

Gosto mesmo do plural. Do mais, do cheio, da multidão.
Da hipótese de ver dois ‘Eu’, mesmo tão diferentes, se transformar em ‘Nós’.
Sou nascida em 2 e o tenho como número da sorte. É mais generoso. Até mais graciosa a maleabilidade da curva em seu desenho, do que o rígido 1, sempre tão ereto e altivo. Prefiro o poder de multiplicar, fazer dobrar e depois elevar ao quadrado, do que esta sensação vazia de superação e solidão.

Você vai ter coragem de contrariar a profecia do poeta: “É impossível ser feliz sozinho”? Pois é, nem eu. E por isso sempre é preciso outro. Desde Adão é assim: 1+1=2.
Dois corpos, dois corações, duas mãos se tocando, dois mundos.
Uma matemática que soma momentos e dar a expectativa de one more time. Epa! Uma não, várias vezes. Se até o Amor Maior não é Uno e escolheu ser Trino, por que cargas d’água esta simples mortal deveria se contentar com apenas um?

Realmente não creio que o amor seja distribuído em versão ‘exclusiva’, selada em caixinhas unitárias, como um presente que, por mais raro e lindo, só possa ser trocado uma vez. Porque parar no primeiro? Espero que antes de se aposentar, o publicitário tenha outra brilhante sacada e invista no 2º. Não como seqüência, mas pelo encanto de REconhecer, REencontrar, em outra forma, o que a gente não deve esquecer.

E quando a gente menos espera, lá vem ele de novo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sorriso amarelo


Não sei bem o que aconteceu.
De repente, amarelou. Como no sinal que corre solto e estanca no amarelo.
Assim, de última hora, no fechar da porta, no tchau.
Quando ia ser, não foi.
Poderia ser de qualquer cor, mas justo a minha favorita?

O amarelo sempre me lembrou o sol, a luz, a alegria.
Desde pequena me vesti da cor da vida.
Nas telas em que pintava o mundo, a matiz e seus tons sempre foram predominantes.
Devolvia-me o sorriso nos dias mais cinzas, nos avermelhados ou mesmo naquele em que a as gauches, os pastéis e os óleos se misturam em composição indefinida!

O sorriso.
Sempre o vi como uma porta aberta, convidando a entrar. Os olhinhos brilhando, num tom mel, emanavam uma luz que me invadia e me fazia ressurgir menina de todas as idades.

No dia em que me chamou pra provar o líquido preto e gelado, eu me vesti de rosa. Rosa como debutantes que festejam o amor, sem se importar com a ordem, se o primeiro, o segundo, o terceiro, só em festejar. E passei a noite acordada imaginando situações e sonhando de olhos abertos. Como menina de 15 anos não me continha em expectativas até a hora marcada.

No meu livro, sentada no chão com os pés tocando as nuvens, desenhei arco-íris, rabisquei bocas, corações e beijos e derramei todas as tintas enquanto o relógio corria e me dava a sensação de gelinho na barriga.

Eu estava viva, tão viva quanto o tom mais fluorescente da minha cor. Seja ouro, gema, canário, limão. O mais bonito.

Então que, na hora do vernissage, a cor mudou, ganhou a sua pior derivação.
Destoando do cenário, da tela, da moldura, de tudo ali. Mudou.

Não entendi.
Talvez tenha sido os pincéis, cansados dos meus devaneios, que resolveram me pregar uma peça. Sentiram-se traídos e armaram uma conspiração por eu ter escolhido o pink naquele tarde? Vá saber.

O que sei é que amarelou.
Poderiam no auge do ciúmes terem jogado solvente, mas...
Naquele dia, justo naquele dia, o sorriso foi amarelo.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dia de chuva


Hoje acordei de sobressalto. O quarto estava escuro e pouca luz conseguia entrar pela janela. Um estrondo assustador me devolveu a estatura dos seis anos e chamei, repetidamente, pela minha mãe. Até que ela, entrando no meu quarto, carinhosa e apreensiva, aliviou meu coração: “são trovões, filha!”. Fortes trovões, que me tiraram do mundo dos sonhos.

Depois do susto, me levantei e fui ver a chuva. Um pé d’água que afetou, inclusive, o abastecimento de energia da minha cidade. Um temporal. Mas como assim? Hoje é dia 16 de janeiro. Janeiro! Ou seja, pleno Verão!

Mas o barulho que agora ressoava e apertava meu coração vinha de outros ares, que me questionavam a mudança de calor para o frio e queria saber se ainda dava tempo.

Do quarto, eu olhava o dia da minha cor. Há situações que nos levam a aquarela. E eu acordara tão cinza, quanto as nuvens que se desfaziam frente a minha janela.

Não entendo. É verão e a minha vida já estava ganhando as cores fortes e claras da estação. - Mas o que mudou?, mais uma vez bradou o trovão. E eu não tinha todas as respostas e não sabia crer nas que ouvia quando devolvi a pergunta.

Será uma dessas zonas de convergências, que o arrogante Bistrot explicaria com maestria em mais uma entrevista? Não sei. Não sei se o tempo ou o clima, como dividiria em sua correção o veterano meteorologista.

Dentro de mim, lágrimas caíam como a chuva chorosa que perdurou toda a manhã, a tarde e talvez adentre a noite. Uma chuva que lavava e fazia reaparecer flores, encobertas pela poeira e folhas secas. Flores que não perderam o encanto de sua história, apesar do forte calor deste sol nordestino ou californiano. Mas que já não tem a mesma vida. E os espinhos, quem me garante que caíram?!

Meu pai dizia que eu encontraria respostas na tristeza, porque é nela que paira a reflexão. Os dias de chuva são mais tristes, mas eu sempre gostei deste friozinho, do cheiro de terra molhada, do convite à ficar na cama, à brincadeiras para aquecer os pés e aos pensamentos.

- Ainda há tempo? O que mudou? E o que muda com isso? – ecoa em mim ainda.

Passei tanto tempo na chuva. Seis meses. Molhada. Com frio. Sozinha. Apenas dois pés sob os lençóis, apesar da busca insistente para reencontrar os teus. Meu rosto banhado tinha o gosto salgado e a tristeza nada tem com as precipitações da água.

E a chuva continua caindo lá fora. Vou deitar. Ler um livro. Esperar que estas doces lembranças se escoem e se resguardem em um reservatório de luz. Foram momentos mágicos.

Mas é verão.
Apesar do barulho do trovão anunciando as águas após o clarão, é verão! Da minha janela, vou esperar o sol. Afinal, nada mudou. A estação é a mesma. Eu também. E você? Você mudou?

Vou esperar o sol. Quem sabe ele não me aparece em forma de um sorriso. Um largo e lindo sorriso!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Mais um cafézinho??


O bule. O fogão à lenha. O cheiro de café convidando a conversar. As tardes eram mais amenas e os risos mais fáceis. Da cozinha, se ouvia vozes alternando numa melodia de alegria e confissão. As mãos que há pouco secavam lágrimas, agora côa o líquido preto e serve a xícara quente. A vida na simplicidade, buscando somente ser o que é. Sem pretensões. Sem muitos planos ou quereres. O momento. Um gole de cada vez.

A correria e o cansaço do dia-a-dia embaçam a beleza de ouvir os olhos, tal qual o vapor fumegando da xícara turva as lentes. Às vezes, tempo e sonhos são investidos em coisas que não convém. Que travam na boca e deixam apenas um gosto ruim. Enquanto o que faz bem é simples, sempre esteve lá, de graça, como naquelas tardes em que o aroma aquecia a casa e o coração. Tão perto, a um movimento da mão. Basta apenas reconhecer e priorizar o que realmente importa. Dar a dose necessária para o dulçor.

E outras vezes, adequar o paladar, perder o medo de se queimar e saber que mesmo doendo, depois passa. Cada coisa por sua vez, sem a pressa de fazer da vida um compilado de pessoas, coisas e planos que nos levam de nós. Apenas viver. Saboreando o gosto forte do amargor que adoça a boca. O bule todos os dias está no mesmo lugar.

– Puxe uma cadeira, sirva-se!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

UM BRINDE A LIBERDADE!

Estive acordada o suficiente para sonhar quando ele chegou. E chegou fazendo barulho, trazendo a alegria das mãos se tocando, dos abraços quentes e dos sussurros de paz que enchem o coração e molham os olhos docemente. Clareando o céu, o mar e os sonhos com luzes multicoloridas, ele chegou!

Foi esperado até o último instante e no primeiro já estava lá.
Chegou acendendo desejos adormecidos e um sentimento de libertação. É isso mesmo: LI-BER-TA-ÇÃO! Enquanto eu beijava os queridos ao meu redor e aquele que só meu coração podia enxergar, também visto nas lágrimas de saudade da minha mãe, eu desejei para 2009 ser livre! Não livre como sugere o Aurélio e suas páginas deitadas na estante.

Mas livre feito aquele beija-flor furtacor, que, de vez em quando, pousa na minha janela para beijar os malvões e as pipocas roxas. E, voando e revoando, vem me causar inveja desta capacidade de amar um jardim inteiro, sem julgar ou se importar com a cor das pétalas, se algumas já caíram ou só agora se abrem, preocupando-se apenas com sua missão de renovar a vida.

Livre como aquela criança de olhos vivos que inocente dormia na rede da varanda, sem deixar que o estourar das champanhes, sorrisos, espumantes e afins perturbasse, quando o relógio marcou zero hora, sua imersão em mundo mais bonito, onde não se vê calendário.

Livre como um apenado que há tempos ansiava o abrir dos portões, apesar dos cadeados frouxos. Aliás, portões abertos. Posto o cadeado apenas como faz-de-conta só para garantir que eu não saísse e as visitas não cessassem. Ahhh! Mas é que a cela era linda, linda, linda. Quente. Rica. Com aquele perfume amadeirado que faz perder a cabeça e depois sossegar e reinventar mundos. E eu há muito havia enfeitado-a com meus melhores sonhos. Pus as nossas realidades em molduras de flores e espinhos retorcidos, que me sorriam e machucavam o coração, cada vez que as olhava. Por anos e anos foi meu cantinho, o porto seguro, o segundo endereço. Pra quê sair dali? Tão cômodo, conheço cada tijolo que misturado a argamassa se fazia identidade. Talvez seja lá que deixei a minha, ou parte dela.

E o mundo além portas abertas também podia, pode, machucar. Juro que ainda tenho medo! Mas resolvi sair. Sozinha. Um pé de cada vez, sob um olhar de menina, que pouco sabe dos segredos da vida.

Não, não quero o cativeiro de um amor que me roube o que sou, que me leve de mim, sem a gentileza de perguntar se pode, para ouvir um não firme e mal-humorado. Um amor que não me permita sonhar os meus sonhos, aqueles que trago desde a primeira infância ou os que me acompanham desde a noite passada. Não posso e nem quero mudar o que sou. E não vou! Também não quero sonhar sozinha. Tampouco e ainda mais, não quero acordar sozinha.

Epa! Calma! Não estou aqui decretando a minha solteirice vitalícia nem pulando numa vida de libertinagens deliciosas. Quem me conhece sabe que sou careta o suficiente para resistir a estas entregas desprovidas de sentimento. Sabe também que sou romântica e a paixão é o que me move. Adoro está apaixonada! Por tudo! Sou apaixonada por minha família, amigos, por chocolate, borboleta, beija-flor, cor, poesia, prosa, música, sorvete, sorrisos, chuva, praia e noite ensolaradas.

Apaixonada por gente! Nossa como gosto de gente (de cachorro também)! A invenção perfeita de Deus, embora cheia de defeitos - o ser humano, não os cães! Gente de atitude, de meias-palavras e palavras e meia. E as palavras, esta é outra paixão que me leva a aventura diária de ser repórter nesta pequena cidade. De embarcar em mundos diferentes a cada leitura de livro, de uma imagem bonita, de um olhar pidão.

Sendo assim seria impossível pensar em ser livre do amor. Não. Eu o quero em 2009 também!
QUERO O AMOR.
O AMOR E SUAS SOMAS.
Depois de aprender que o importante não é só o abrir do portão, quero mais é a libertação do fechar a porta atrás de mim, esta que há muito permaneceu entreaberta. E poder mergulhar neste dia lindo, novo, cheio de luzes, cores e expectativas, que acaba de amanhecer.

FELIZ 2009!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A MAGIA DA RENOVAÇÃO


O calendário. O ritmo compassado do relógio. A correria de carros e passos nas ruas da cidade. O tempo sendo aguardado, como o show de um grande ilusionista que esconde na manga o poder de transformação. E deixa para os dez segundos finais o ápice da apresentação: a magia do início depois do fim. O novo, o que virá. Uma última olhada nos 365 indivíduos e mais aquele penetra, que da platéia espreitam o espetáculo com suas caras murchas, seus sorrisos breves, cansados do peso do trabalho, dos erros e das perdas, arregalam os olhos para prender o momento, pois só restam 10 segundos, um fechar das cortinas e o que é não será mais, como num passe de mágica. Esvaziando as poltronas e os camarotes para novos espectadores sentarem-se.
Nas coxias apenas os personagens revestidos de sonhos e esperanças fazem planos para o que há de vir. E rabiscam cenários e desnudam figurinos numa pressa criativa, como se detivessem nas pequenas mãos a certeza do roteiro perfeito a seguir. E a têm, ao menos por dez fragmentos de tempo.
O calendário já marca o último instante e anseia a força do vento para virar a folhinha. Um marcar de espaço. O futuro e suas inúmeras possibilidades de acertos. Tantas quanto as hipóteses do segredo do mágico. Mas qual será o truque? O mesmo encantamento recai sobre crianças e velhos ao longo da eterna corrida dos ponteiros do relógio.
E finalmente chega a hora da redenção, num estourar de luzes, champanhe e sentimentos, recebemos a segunda, a terceira, a quarta chance de compreender os erros, superar as tristezas, olhar para frente e investir no novo. O novo ano, a nova vida, os novos projetos. O desconhecido mistério saindo mais uma vez da cartola, branco como um coelho de curiosos olhos vermelhos. De um salto, a criança da primeira cadeira, simples como o ano que acaba de nascer, acolhe o bichinho na mão e revela baixinho: o segredo é a renovação.
O truque é o mesmo, assim como o número de dias do calendário. O que muda é a nossa disposição de buscar e acolher os novos coelhos, com a mesma ilusão e encanto dos espectadores que agora ocupam a platéia para o show que apenas está começando. Pois, como diria o mago Quintana “Bendito quem inventou o belo troque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia primeiro de cada mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas recomeça."

(texto publicado no JH Primeira Edição de 27/12/2008)

FELIZ 2009...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Retrato da velhice brasileira

Todos os dias ela sai para trabalhar. Apesar do peso da idade e da minguada aposentadoria, a necessidade obriga a mulher acordar cedo para mais uma batalha. Com passos lentos, se move até o tabuleiro em que vende verduras ou ao sinal mais próximo, para esmolar a dignidade. É uma troca justa. O que sobrou da saúde pelo pão de filhos e netos, que jamais darão o reconhecimento ao ato de amor da velha senhora. Este é o retrato de um país que caminha, sem preparo e sem respeito, para o envelhecimento. Hoje, pessoas com mais de 60 anos são responsáveis por pelo menos a metade das despesas de mais de 50% dos lares brasileiros. Mas assim como sobe os índices de participação no orçamento familiar, crescem, também, os casos de violência. Em Natal, a cada ano são registradas em média 350 denúncias de violência contra o idoso na delegacia especializada, e 200 ocorrências no serviço SOS Mulher. A maior parte se refere aos maus tratos e apropriação financeira indevida. Parentes mais próximos, como netos, filhos e seus parceiros, são os principais praticantes dessas atitudes, consideradas crime pelo Estatuto do Idoso. Ou seja, aqueles que se sacrificam para dar o sustento, são também os sacrificados por uma cultura desumana, que suga as forças, o dinheiro e reduz nossos idosos a dados estatísticos “sem grande serventia”.

Do cinza se faz aquarela

Tarde morna. Do campo cinza, onde repousam sonhos e histórias, o velho de enxada na mão revolve a terra e faz surgir pequenas flores, devolvendo a aquarela à paisagem fria. A lâmina corta a terra dura e traz a beleza de volta, mas não sem antes revirar o chão. A lida diária consiste em transformar ambientes, retirar o pó, zelar pelo que não é mais. Solitário, já se habituou as lições do tempo e do silêncio, que mostra que o sofrimento abre espaço para a vida. É a renovação. O fim, antes da mudança. A lida diária de desencontros e dificuldades que cava espaço para as transformações. É preciso estarmos atento a estes ciclos, aos túmulos que nos cerca, onde descansam desassossegos, sepulta-se enganos, mas que também serve de base para cultivar jardins.

O analfabetismo, um cárcere

Estes dias me atravessou manchete de um matutino: “Homem preso por não saber ler”. A matéria dava conta da prisão de um “foragido” analfabeto, que ignorava a obrigação de comparecer a audiência conforme descrito na intimação judicial.
Talvez, o leitor mais apressado não tenha reparado no absurdo do crime, nem tampouco, do criminoso. Longe da morosidade e da burocracia burra que amordaçam a dama cega e entopem o gargalo do sistema prisional, a violência ali é outra. Uma violência velada cometida diariamente por uma democracia às avessas, que à sangue frio atenta contra o futuro de outros tantos brasileiros. O analfabetismo é uma cela que há muito envergonha o país.
Em tempos de mostrar serviço e correr atrás de votos, o interesse dos nossos prefeitáveis estão mais voltados para criticar uns aos outros do que para apresentar propostas coerentes à educação do município. Mas sem querer defender a classe política, a sociedade também tem sua parcela de culpa, visto que não participa da vida escolar de nossas crianças e jovens.
Mas o absurdo não pára por aí (e nem os crimes). Dados do IBGE dão conta que dos cerca de 60 milhões de estudantes, 60% das crianças de primeira a quarta série não dominam as quatro operações básicas, 65% dos alunos da oitava série não sabem trabalhar com porcentagens. Mas isto são detalhes, o importante é atingir a meta do IDEB, na busca por uma colocação que levará ao país ao patamar de “desenvolvido”, por meio de uma metodologia que maquia resultados e emburrece estudantes, que não podem ser reprovados.
Um governo que nega ao seu povo à educação, encarcera a liberdade de escolhas, aprisiona na cela escura e imunda um mundo de possibilidades, de desenvolvimento humano, político e social.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Infância Roubada

Seis meses de vida e já atrás de grades. Não há culpa naquele pequeno ser. A pena (e a dó) é da mãe, condenada por tráfico, que reluta em deixar ir para além-muros, o fruto de uma aventura. O preço recai sobre a pequena vida, que passa pelos portões para ter sua liberdade aprisionada pela miséria, medo, preconceito.
Aqui fora, são outras as celas que faz refém milhares de crianças. O descaso com a educação e os direitos à vida enchem ruas e canteiros de meninos e meninas, que cheiram cola para matar a fome, inclusive, de atenção, na certeza que não terão muitas oportunidades, nem boas lembranças no futuro.
A indignação sem atitude é outra cela, vizinha a da indiferença, que alimenta a desigualdade e a injustiça. E rouba das nossas crianças aquilo que teriam de mais sagrado: a infância e sua inocência.

A violência pela catraca

O relógio marca 7h40. Atrasada, corre, sobe, senta. Da janela vê passar carros, buracos, edifícios, no percurso de todos os dias. Passam pessoas apressadas, que lutam contra o tempo, enquanto este passa e leva longe a época em que Natal dormia segura, onde a “guerra urbana” era coisa dos morros de um outro Rio. Tempos em que se podia caminhar, comprar pão ou andar de ônibus sem grandes preocupações. Tempos em que crianças brincavam de polícia e bandido, sem fazer confusão entre quem é o ‘mocinho’ e o ‘vilão’.
-“Passa, Passa”- não era pensamento alto.
Por trás do trêsoitão, o grito impaciente mostra a cara do terror, que também cedo madruga. Afinal, também vai longe a época em que havia locais e horários para acontecer.
– “Tá surda? Não ouviu, não? Passa!”.
E leva a bolsa, o celular, o resultado de horas de trabalho e a dignidade de uma vida, reduzida ao tamanho da maldade. Em meio ao choro e gritos de desespero, vê-se o corpo estendido. O ladrão de vidas correndo.
Vê-se ainda o medo estampado nas caras, nas primeiras páginas, nas grades e cercas elétricas. O que não se pode ver é a cara do bandido, aquele que levou a bolsa e a dignidade, destes está resguardado o direito de imagem.
Mas e o direito dela continuar mostrando o sorriso, não cuidaram?
Porque esperar? 155 assaltos à transportes coletivos, em 8 meses, não eram suficientes? Não bastava só o atraso dos ônibus? Aquele corpo sem vida poderia ser o de qualquer um ali, até mesmo o seu.
Engessados na burocracia e leis de inúmeras interpretações, os responsáveis (?) pela segurança pública se movem ao passo de ‘latas velhas’. É preciso mais que competência para enxergar pessoas além de números e ações, além de promoção. Antes que passe, também, o tempo em que a população tinha em quem confiar.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Mar de Agosto


Do meu mar calmo
ergueste tu, sem grande estardalhaço
num movimento impetuoso, sincronizado
com uma força e suavidade calada
quebraste
sem que o olhar ou o momento te prendesse
e no vai-e-vem de tuas águas quentes e inconstantes, flutuo
o que fazer?
não sei nadar

(26/junho/2004)
.

A vida também é uma grande pesca

Manhã chuvosa. Ondas revoltas e muito vento não teriam permitido que canoas e saveiros saíssem para pescar. Apesar do mau tempo, o homem simples levanta e segue para as águas, de onde vem o sustento. Não há muitas escolhas. Nas inúmeras tentativas traz o peixe. Mais que a fé daquele outro pescador , que vacilou nas águas, este tem a humanidade erguida pela carência e esperança de um dia melhor. A vida também é uma grande pesca. E exige de cada um de nós paciência para enfrentar as tempestades, perseverança para saborear o resultado e sabedoria para não se contentar com a calmaria.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Basta amar

E aquela menininha de cinco anos, não mais que cinco anos, que há pouco estivera sentada em frente à tumba na qual, em doce sono, descansa seu pai, agora levanta mulher. Forjada pelo fogo da dor do desamparo e pela experiência de amor que sobrevive além-morte, busca apenas viver.

Quando levantou a cabeça, enxergou um dia novo, cheio de novas luzes, cores, cheiros e sabores. Não soube dizer com a precisão de um palhaço - estes seres que muito sabem da vida – se este, o dia, era mais ou menos belo e gostoso, dos que em outra tarde experimentara ao lado do velho pai. Homem sábio, simples, de palavras fortes e sorriso fácil. Apenas novo.

Aquele dia tinha as mesmas sementes que, todos os dias, fazem germinar e crescer a vida, com as dores das podas necessárias para que floresçam em beleza, colham frutos doces e tenros, depois adormeçam e cedam lugar para um outro plantio. O novo, ali, era a forma como a mulher de cinco anos enxergara o dia. “Em tudo Deus põe um propósito. Sê feliz, filha”, ouviu o pai dizer.

Um flerte rápido com esta vida, de olhar sedutor, decodificara as dificuldades e os paradoxos pavorosos, em simples crônicas de leitura diária ou em notícias de algum matutino. Destes que circulam entre tantos desconhecidos, conhecedores de semelhantes infortúnios e dissabores. E forçara a dor única da menina-mulher a moldar-se ao tamanho que tem: nem maior nem menor do que outras tantas estampadas na primeira página.

Algumas horas, ela finge ser mulher para agüentar a vida. E com uma canção de ninar põe para dormir os anseios e medos que a figura da morte, não mais aquela de outrora, esquálida, sombria, de túnica preta e cajado na mão, impunha. Mas agora a de um translúcido anjo, que com ternura ceifa vidas, entre campos de alegrias e sofrimentos, e recolhe almas num cântaro de preces a Deus.

Outras, como uma menina de não mais que cinco anos, que não entende a morte, lamenta, chora, levanta e vai ver televisão. Às tardes sempre passam desenhos e filmes bobos, que se satisfazem em alimentar o imaginário humano com fáceis conclusões. Percebe no passado os pilares que a levaram até ali, planeja o futuro e, no presente, repete em silêncio uma oração de amor: “Obrigada”.

A menina que sentara para chorar ergue-se mulher. Arruma o vestido. Seca as lágrimas. Abre um grato sorriso e deposita a mais linda rosa, que jamais ofereceu em vida, no vaso junto à cova do pai. E o vê sorrindo, “Sê feliz, filha”. Antes de sair, um passarinho com um enorme rubro nariz de palhaço pousa no ombro e cochicha baixinho, para que as marmoreáveis lápides e seus epitáfios não se sintam menosprezadas: Basta amar!

E entende que não foi a morte, nem é a vida, mas o amor. Este laço em nó-de-marinheiro que une, sem ferir e sem desatar em circunstância alguma, pais e filhos, casais, amigos, e dá a luz, e dar a cor, o cheiro e o sabor para olhar e entender o novo mundo, que a cada dia floresce perante aos nossos olhos.

domingo, 31 de agosto de 2008

Mais uma vez?

Eu só queria dizer que eu te amo. Talvez a última vez. Talvez não. Não sei. Aliás, o que eu menos sei é quando isso vai terminar.
Às vezes sinto sufocar. Como se o que sinto, simplesmente, começasse a se expandir dentro de mim como um gás, que toma conta de tudo, leve e pesado, feito uma aurora boreal, cheia de luzes e cores... e música!

A música que o vento faz quando bate no tubarãozinho, ali, balançando. A música que sai das cordas da tua guitarra e da tua alma pra alegrar meu coração. A nossa trilha sonora, a mistureba de Ed a Seal, djavaneando numa freqüência que é só da gente. O som do carro parando, da tua risada engraçada, do ‘siirrll...delicioso!’ e até aquele barulho insuportável de sugador de dentista.

A música da praia, dos pés apitando na areia, dos risos pós-caldos, dos braços se esquentando. “Pera, vou molhar o pé”. E o tempo parava pra gente ver aquele mar tão grande e tão nosso. Búzios sem você é tão estranha quanto Búzios sem mim. E eu espero. Até quando? Não sei. Sei que não devo, sei que não dá. Mas, espero. Por que? Você também sabe.

Ontem acordei pensando em você, e me arrumei e até alisei meus cabelos (só por sua causa). Eu estava realmente bonita. Recebi todos os elogios, exceto um. O único que fez falta e faria valer a pena ter levantado às 5h50.

Às vezes, desejo apenas mais uma das inúmeras sessões de filmes & pipocacocacolacomchocolate, e tanto faz se em casa ou no cinema, mais uma vez, eu iria derramar tudo. “Desastrada”.
Mais uma ida ao Ponto de Partida.
Mais um Dia do Tubarão Branco.
Fazer cócegas nos pés, apertar a orelha, ir dormir de conchinha e receber o bom-dia num beijo.
Sempre que como batata chilli-cheddar, cocada ou sambo com Fernanda Porto... sempre que eu aprendo, conheço ou provo algo bom e novo é você, a quem, primeiro, eu queria contar, mostrar, levar.
Ainda é teu, meu primeiro e último pensamento do dia.

Muitas vezes, o que eu quero é tão simples como passear de mãos dadas no shopping, dividir uma pizza de calabresa, criar outro labrador. Ou planejar viagens, escolher os nomes dos filhos e a cor dos móveis (o sofá, amarelo). Vira e mexe, me pego rindo com o uivo, a dancinha... são tantas, tantas lembranças.

Outras, desejo esquecer.
Mas creio impossível (ao menos por enquanto, será?). Afinal, seria mais fácil não ter vivido. E vivi tudo tão intensamente!
Como, meu Deus, apagar o cheiro do abraço, o gosto da sintonia, a visão do beijo, o toque da palavra em silêncio, o som do sonho?? Sou só uma menina.

Era você quando eu parti em busca do meu sonho, quando eu festejei a vitória, quando ‘ele’ se foi.
Era você quando alegre, triste, cansada e com TPM. Sou mulher e acredito no bom.
Como não sonhar??
Ainda te amo.